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28 de jun de 2016

Karl Barth e a doutrina da predestinação


Uma das características mais interessantes da teologia de Karl Barth é a maneira como ela interage com a teologia do período da ortodoxia reformada. A seriedade com que Barth encarou os escritos desse período foi, em parte, responsável pela criação do termo “neo-ortodoxia”, expressão usada para designar a ampla abordagem de Barth. O tratamento que Barth dispensou à doutrina reformada da predestinação é particularmente interessante, pois demonstra o modo como ele consegue lançar mão de termos tradicionais e atribuir-lhes um novo significado, no contexto de sua própria teologia. A discussão de Barth sobre a predestinação (Church dogmatics [Dogmática da igreja], volume 2, parte 2) fundamenta-se em duas afirmações centrais:
1 - Jesus Cristo é o Deus que elege.
2 - Jesus Cristo é o ser humano eleito.
Essa forte orientação cristológica da predestinação é mantida ao longo de sua análise da doutrina. “Em seu sentido mais simples e abrangente possível, a doutrina da predestinação consiste na afirmação de que a predestinação divina é a eleição de Jesus Cristo. Esse conceito de eleição, porém, faz uma dupla referência - refere-se àquele que elege e também àquele que é eleito”. Portanto, o que exatamente Deus predestinou? A resposta de Barth a essa questão engloba vários elementos, dentre os quais os mais importantes são apresentados a seguir:
1 - “Deus escolheu ser amigo e parceiro da humanidade”. Deus escolheu, por meio de uma decisão livre e soberana, relacionar-se com a humanidade. Barth afirma assim o compromisso de Deus para com a humanidade, apesar do pecado e da corrupção humana.
2 - Deus escolheu demonstrar esse compromisso entregando, pela redenção da humanidade, a Cristo. “De acordo com a Bíblia, foi isso que aconteceu na encarnação do Filho de Deus, em sua paixão e morte e em sua ressurreição dos mortos”. O ato da redenção expressa a atitude de Deus, que elege a si mesmo como redentor da humanidade pecadora.
3 - Deus escolheu suportar toda a dor e todo o preço da redenção. Ele escolheu aceitar a cruz do Gólgota como um trono real. Escolheu também aceitar a porção que pertencia à humanidade caída, especialmente no sofrimento e na morte. Ele escolheu o caminho da auto-humilhação e degradação para redimir a humanidade.
4 - Deus escolheu receber em nosso lugar os aspectos negativos de seu julgamento. Ele rejeita a Cristo, para que nós não sejamos rejeitados. O lado negativo da predestinação que deveria, conforme Barth sugere, ter recaído, por direito, sobre a humanidade pecadora, é, em vez disso, direcionado a Cristo, o Deus que elege e o ser humano eleito.Deus optou por suportar a “rejeição, condenação e morte”, que são as conseqüências inevitáveis do pecado. Assim, “a rejeição não pode vir outra vez a tornar-se a porção ou o destino da humanidade”. Cristo suportou aquilo que a humanidade pecadora deveria ter suportado, para que a humanidade jamais tivesse de suportar isso novamente.
Embora a predestinação contenha um “não”, essa negação não se volta contra a humanidade. Embora a predestinação envolva exclusão e rejeição, não se trata da exclusão e da rejeição da humanidade. Embora ela esteja voltada para a perdição e a morte, não se volta para a perdição e a morte da humanidade.
Assim, Barth elimina qualquer idéia de uma “predestinação para a condenação” em relação à humanidade. O único que é predestinado à condenação é Jesus Cristo que “desde toda a eternidade escolheu sofrer por nós”.

As conseqüências dessa abordagem são claras. Embora todas as aparências indiquem o contrário, a humanidade não pode ser condenada. No final, a graça triunfará, até mesmo sobre a descrença. A doutrina da predestinação de Barth elimina a possibilidade de rejeição da humanidade. Pelo fato de Cristo haver suportado a pena e a dor da rejeição de Deus, isso não mais caberá à humanidade. Aliada a sua ênfase característica sobre o “triunfo da graça”, a doutrina da predestinação de Barth aponta para a restauração e salvação universal da humanidade — uma posição que tem provocado um certo grau de crítica por parte daqueles que, em diferentes condições, seriam favoráveis à perspectiva geral de Barth. Emil Brunner é um exemplo deste tipo de crítica:
O que essa declaração, “que Jesus é a única pessoa realmente rejeitada”, significa para a condição humana? Evidentemente significa isso: Que não há possibilidade de condenação... O julgamento já foi feito em Cristo — e isso serviu para toda a humanidade. O fato de a humanidade ter ou não conhecimento disso, crer ou não nesse fato, não é tão importante. A humanidade é como um grupo de pessoas que parecem estar perecendo em um mar revolto. Contudo, elas, na realidade, não se encontram em um mar onde possam se afogar, mas apenas em águas rasas, nas quais é impossível se afogar. Acontece apenas que elas ignoram esse fato.
Fonte: MCGRATH, Alister E. "Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica."

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