Frases

15 de dez de 2015

Onde estava Deus?

(Ilustração do blog "Um Sábado Qualquer", adaptado)


Deus, onde estás?
Palavrantiga

É comum nos perguntarmos por anda Deus em tempos de crise. O salmista bradou no momento de angústia "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que estás afastado de me auxiliar e das palavras do meu bramido? Deus meu, a ti clamo de dia, porém não me respondes; Também de noite, porém não acho descanso." (Sl 22). Sempre que ocorre uma tragédia em nossas vidas ou mesmo ao nosso redor, queremos uma explicação do Senhor sobre a razão dEle, sendo todo-poderoso, parecer-nos que estava inerte ao acontecido. Somos assim pela razão a qual Deus nos é apresentado nos dois Testamentos como um ser onipresente, onisciente e onipotente.

O filósofo Epicuro, em seu famoso paradoxo, disse: "Se Deus pode acabar com o mal mas não quer, é monstruoso; se quer, mas não pode, é incapaz; se não pode nem quer, é impotente e cruel; se pode e quer, por que não o faz?". A afirmação de Epicuro é baseada na ideia de que Deus e o mal não podem coexistir se essa divindade for considerada onisciente, onipotente e benevolente. Então, como poderia Deus possuir os três atributos, onipresença, onisciência e onipotência, e, mesmo assim, não intervir na história? Para tentar responder a esta pergunta precisamos refletir sobre a pessoa de Deus em sua manifestação máxima: Jesus Cristo de Nazaré.

Jesus apresentou-se como a revelação do Pai (Jo 14:9) e como o cumprimento de tudo o que fora antes prometido (Lc 4:21). Segundo o Evangelho de João, Jesus deparou-se com uma situação de pesarosa perda, quando seu amigo Lázaro falecera. Após alguns dias ele foi até seu amigo, já morto, e ao dialogar com Maria irmã de Lázaro, vendo-a sofrer e chorar, Jesus entristeceu-se profundamente e também chorou. O compadecimento de Jesus demonstra que Deus se compadece com a dor humana. Lázaro morrera dentro do chronos, mas Jesus teria acesso ao seu espírito através do Pai (Ec 12.7). Sua presença ainda era acessível a Deus. Contudo, o sofrer do Cristo foi um sofrimento pela dor de Maria e não pelo amigo que havia morrido. Ou seja, Jesus sofreu o sofrimento de Maria irmã de Lázaro. Ele compadeceu-se com a dor do outro. O próprio Salmo 22 diz que Deus não esconde sua face do sofrimento do aflito. Logo, Deus não é apático ao sofrimento humano, antes sofre com cada um e cada uma que sofre.

"Se Deus sofre a dor humana e Ele é onipotente, por que não age para que a dor cesse?" A Bíblia não diz o porquê de Deus "parecer" não agir diretamente evitando um tsunami, um terremoto, a queda de um avião, um acidente de carro, o afogamento de bebês, guerras, doenças, etc. Contudo, as Escrituras apontam para algumas possibilidades de compreensão: (1) Deus sofre com a humanidade as suas dores, mas só intervém no chronos de acordo com Seu plano macro; (2) Deus sofre com a humanidade as suas dores, intervém na história em alguns momentos de maneira especial (ex.: a encarnação de Cristo) e confia à Igreja para agir no mundo como agente de cura e transformação (Lc 22.29).

As duas possibilidades de explicação estão interligadas, sendo a segunda a mais completa. O Deus que sofre as dores da humanidade, escolheu agir no mundo através de sua Igreja. Sim, a Igreja é o corpo de Cristo (Cl 1.18) que promove as ações salvíficas de Deus na história, pelo Cristo e através do Espírito. Por que? Porque Ele escolheu que assim fosse. Porque Ele escolheu ser parceiro do Homem na história de sua redenção e regeneração. Deus quer que humanidade caminhe com Ele neste processo de cuidado da criação. Deus quer que o ser humano se importe, como Ele se importa, com a dor de nosso semelhante. O Deus que sofre, ás vezes sofre duplamente: sofre as dores dos que sofrem e novamente quando Sua Igreja negligencia o convite do Cristo para servir ao próximo, como o Cristo serviu - "o Maior que serve o menor" (Mt 20:25-28).

Este é o legado da Igreja: sofrer as dores do próximo e ser agente de cura e de transformação. É dever da Igreja se importar, permitir-se angustiar com os problemas dos outros e, quando for o caso, chorar as lágrimas dos seus semelhantes. Sejam eles de suas igrejas ou não; sejam eles cristãos ou não. Através de Sua Igreja, Deus responde ao mundo que se importa com a humanidade e age em prol dela. Mas para isso, a comunidade cristã precisa se posicionar como serva do mundo e não dela mesma; posicionar-se como corpo de Cristo que toca e abraça o mundo em suas aflições, não escondendo sua face ao que clama. 

A pergunta "Deus, onde estás?", deve ser respondida com outra pergunta: "Igreja, onde estás?". Deus está onde Sua Igreja está. Se uma determinada igreja isola-se dentro de suas quatro paredes e, por conseguinte, não se importa com a vida da comunidade que a cerca, ela é promotora da ausência de Deus ao seu redor. Não há lugar no universo em que Ele não esteja presente, mas há lugares onde Sua ação é limitada pelo interesse de Seus seguidores. Seu Espírito vivendo em cada cristão visita os que sofrem. Essa é a missão da Igreja: visitar os aflitos em suas aflições anunciando as Boas Novas, o reino de Deus e promovendo a paz. Se conseguirmos fazer isso, seremos então a Igreja que o Senhor deseja.

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