Frases

2 de jan de 2014

Diário de um desigrejado: Final


No último dia 31 completei um ano de desigrejado. Foi um longo e duro ano sem ter uma comunidade fixa. Esporadicamente visitei algumas comunidades. Aproveitei para conhecer igrejas que há muito tinha interesse em conhecer. Conheci gente nova, profissões de fé distintas e pregadores diversos. Infelizmente muito do que vi, foi apenas "mais do mesmo". Parece que a epidemia que me fez um desigrejado infectou muitos outros lugares.

Visitei comunidades abastadas e comunidades menos favorecidas. A sensação de que o discurso religioso é ímpar, como que se tivessem combinado antes de abrir uma igreja, me deixou em muitos momentos desanimado de continuar procurando por um porto seguro. O pentecostalismo (neo e pós) é como cerveja e futebol em nosso país: uma preferência nacional. Sem querer generalizar, posso dizer que na esmagadora maioria dos lugares onde fui - parafraseando B. Manning -, o Deus apresentado era muito pequeno para mim. Uma caricatura distorcida do Cristo Bíblico.

Nestes lugares, não havia espaço para dúvidas. Duvidar é coisa de gente sem fé, poderiam dizer explicitamente. Suas Bíblias "inerrantes" e "infalíveis" me fizeram desligar de muitas pregações. Em alguns lugares havia um apelo para que os desigrejados se achegassem e ali encontrassem repouso. Porém, quando a Ceia era servida, aqueles que não pertenciam a uma comunidade de fé, não podiam celebrar a Vida, Morte e Ressurreição de Jesus. Não Ceei. Minha mãe chorou por eu não cear. Não me senti bem-vindo, tentei explicar. Não adiantou muito...

No dia 31, como sempre o fiz nos últimos anos, fui a uma destas comunidades que visitei (a escolha foi meramente pela proximidade de minha casa) e lá agradeci a Deus pelo ano e em oração entreguei meus sonhos do ano que iria começar em poucas horas. Na hora da Ceia, burlei o sistema de exclusão aos desigrejados e demais pecadores e ceei. Mas foi a última vez que fui ali. Em 2014 irei me fixar numa comunidade que escolhi junto á minha esposa. Com muitas expectativas vamos ajudar e ser ajudados.

Conclusão

O que posso concluir neste meu ano como um desigrejado é que foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida. Passei muitos anos dentro de uma igreja reclamando de erros e bizarrices. Do lado de fora ficou ainda mais fácil apontar meu dedão, uma vez que não havia vínculo sentimental com a maioria dos lugares. Contudo, Deus aquietou meu coração e hoje posso mais facilmente compreender e aceitar as diferentes maneiras de reflexão bíblica. Menos aquelas que aprisionem as pessoas e as domestique.

Neste ano desigrejado vi que minha fé em Deus é maior do que eu poderia imaginar. Minha fé amadureceu e caminhei um bocado e hoje consigo conviver melhor com as diferenças. Mas nem tudo foram flores. Por muitas dificuldades passei neste ano. Em muitos momentos cedi ao meio e quase esqueci com Quem estou comprometido em aliança eterna. Contudo, cheguei ao final do ano cristão, o que para muitos era algo difícil de predizer. Do "lado de fora", vi o que muito diziam sobre a igreja e, em sua companhia chorei e pedi perdão. Enquanto desigrajado, muitos se sentiam mais a vontade para conversar sobre os problemas que viam na igreja.

Particularmente, acho que todo cristão maduro deveria se desigrejar pelo menos uma vez na vida. Mas para isso, o cristão deve ser maduro o suficiente para não depender do ambiente eclesial para que sua fé se sustente. Não deve deixar de ser um estudante da Bíblia e outros livros. Deve manter sua prática de oração constante. E não deve fazê-lo sozinho. Minha esposa me ajudou quando fraquejei e acredito ter ajudado a ela também. Quando chegar o seu tempo, desigreje-se! Ouse ver do lado de fora e mate o impaciente que vive dentro de você e o faz um "reclamão"! =)

Aos que se preocuparam conosco, fica aqui nosso agradecimento. Suas orações muito contribuíram.

N'Ele, e em processo de igrejamento,

Felipe Costa.
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