Frases

16 de fev de 2012

O lamento da impotência


Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia
todos os choros que não tenho tido tempo de chorar.
Carlos Drummond de Andrade

Nós seres humanos passamos a vida toda descobrindo que somos limitados. Limitados em nossa força, em nossa capacidade de fazer o bem, na capacidade de evitar tragédias, em nossos dias nesta terra e muitas outras são as limitações com que nos deparamos ao longo de nossa curta passagem por aqui.

Descobrir que não possuíam forças para fazer com que Lázaro voltasse a viver levou as irmãs Marta e Maria ao pranto e a desolação no primeiro século. As irmãs que moravam com o irmão provedor do lar, lamentaram, pois se deparavam com a dor da perda de um ente querido e do medo pelo amanhã. O grito de suas almas foi tão verdadeiro que comoveu o próprio Cristo, que com lágrimas se juntou ao sofrimento das irmãs. Jesus chorou mesmo sabendo que Lázaro seria revivido (Jo 11:4). Como Emanuel, ele compartilhou do sofrimento das irmãs.

Jeremias foi um profeta a quem Deus atribuiu uma pesada mensagem (cf. Jr 7). Se Jeremias fosse julgado apenas pelo oráculo do sétimo capítulo do livro que leva seu nome, poderíamos pensar que ele foi alguém que tinha prazer em ser ave de mau agouro. Mas Jeremias é aquele que dá a notícia e lamenta o destino do povo: "Os meus olhos choram, e não cessam, porque não há descanso" (Lm 3:49); "Oh! se a minha cabeça se tornasse em águas, e os meus olhos numa fonte de lágrimas! Então choraria de dia e de noite os mortos da filha do meu povo" (Jr 9:1). O profeta ainda sofre com a proibição do Senhor:  "Tu, pois, não ores por este povo, nem levantes por ele clamor nem oração; porque não os ouvirei no tempo em que eles clamarem a mim, por causa do seu mal" (Jr 11:14). Impotente diante da sorte de seus compatriotas, restou a Jeremias ir junto com o povo para o cativeiro babilônico.

Nem mesmo Jesus escapou do sentimento de impotência diante de uma situação adversa. "E, quando ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela" (Lc 19:41). Jesus pranteou pelo situação da capital da religião em Javé. Os versos subsequentes narram a profecia lançada pelo Messias que aconteceram no ano 70 d.C. A impotência de Jesus não se dava por ele não poder executar uma mudança e sim por Ele ter escolhido aguardar o abrir da porta após o seu toque (Ap 3:20). Deus está pranteando pelo seu povo desde antes de sua encarnação em Cristo:
Ah! Se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos, então seria a tua paz como o rio, e a tua justiça como as ondas do mar! (Isaías 48:18)
Como um amante apaixonado e traído Ele faz juras de amor através da vida de Oséias em meio as muitas dores pela traição de seu povo. Deus quer que os seus povo seja atraído por amor, e não por medo: "Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração" (Os 2:14). Deus também chora.

Chorar faz parte de nossa humanidade e divindade (Sl 82:6). "Os mais infelizes são os que menos ousam chorar" disse Jean Racine. O choro faz bem para nós. Quando choramos nosso corpo põe para fora o sangue que brota da alma. Sangue que sai em forma de lágrimas e cicatrizam as feridas d'alma. O desespero de não poder mudar uma situação em si já é motivo de pranto lamuriento. No fim, descobrimos o quanto somos impotentes. Isso faz de nós pessoas mais humanizadas. Mais parecidos com o Cristo, que também chorou.

Andei chorando e chorei como há muito não fazia. Chorando pelo alimento dado ás bocas famintas que muitas vezes não "sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda" (Jn 4:11). O que posso fazer? - clamei ao Senhor em meio as muitas lágrimas. Ninguém, além da mão que porta uma aliança dourada e que segurava a minha mão, entendia a razão de meu pranto. Até quando? - gemeu minha alma em som audível. Até quando sofrerei ver as flores que Deus me deu para regar, serem alimentadas com tão terrível veneno? - a mão que segurava a minha afanou minhas costas. Naquelas mãos, Jesus se fez presente.

Nosso sofrimento nos aponta para o único porto seguro existente: o Senhor. Paulo entendeu isso quando disse "quando estou fraco então sou forte" (2 Co 12:10). O livro de Salmos é repleto de narrativas onde um pranteia a sua sorte e corre em busca de ajuda em Deus. Há lamento pelos atos falhos, os pecados que envelhecem os ossos (Sl 32). A angústia de nossa alma ao perceber sua fragilidade e impotência, é ouvida e acolhida pelo Senhor: 
Tenho visto atentamente a aflição de meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos. (Êxodo 3:7)
Sim, Ele vê todas as coisas e está ciente de nosso sofrimento. Arrisco a dizer que assim como no episódio do sepultamento de Lázaro, Deus está pranteando juntamente conosco nos momentos de dor. Seja ele de arrependimento ou de impotência. A nossa esperança deve estar no enxugar de lágrimas prometido: "...e Deus limpará de seus olhos toda a lágrima" (Ap 7:17). Confiantes, seguimos adiante sabendo que "o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã" (Sl 30:5). Amém.

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