Frases

30 de dez de 2011

Uma viagem no tempo

por Maurílio Ribeiro da Silva

Um ateu, após anos de intensa pesquisa, desenvolveu a tão sonhada máquina do tempo. Ávido por comprovar a inexistência de Deus, ele estudou o necessário para não denunciar sua anacrônica presença na antiga Galiléia.

Entusiasmado, iniciou os procedimentos aferindo o cronômetro nos primeiros anos da era cristã (ou era comum, como querem os novos cientistas). A velocidade da rotatividade dos cilindros deixou-o zonzo. A matéria ao seu redor se deformou num vai e vem temporal, até que ele perdeu a consciência. A relação espaço tempo foi vencida e a máquina retrocedeu no tempo.

Aos poucos o ateu recobrou os sentidos. Ele estava em uma região deserta a poucos metros dos destroços da máquina do tempo. A primeira viagem seria também a única. Inconsolável, caminhou sem rumo sob o calor escaldante. Horas se tornaram dias. Sem condições de sobreviver, vencido pelo cansaço, fome e sede, entregou o corpo ao próprio destino.

No limiar entre a vida e a morte, uma mão o tocou. Era um homem pequeno, barba espessa, pele escura e de aspecto rude. Ele lhe deu água e comida e o colocou sobre o lombo de um jumentinho. Caminharam algumas horas até um pequeno povoado de triste aspecto, não mais que sessenta ou setenta casas.

Após um ou dois dias o ateu recobrou o vigor. Mesmo não podendo divulgar a pesquisa, ele decidiu continuar com seu intento. Após alguns dias conseguiu se comunicar e descobriu que seu benfeitor voltava de uma peregrinação a Jerusalém quando o encontrou desacordado. Ele morava com a mãe e os irmãos mais novos em uma casa curiosamente escavada numa encosta de rocha calcária. Havia apenas um cômodo conjugado a um pequeno estábulo, onde se espremiam uma cabra e o jumentinho. O povoado se chamava Nazaré.

O ateu foi informado que “Jesus” era um nome comum e na região havia pelo menos quatro carpinteiros com esse nome. O rude nazareno o acompanhou até a casa do primeiro “Jesus”. O quadro era desolador: Na porta um menino chorava ao lado do pai embriagado e estirado no chão. O rude nazareno disse baixinho:

            - Me perdoe, é difícil achá-lo sóbrio desde que a esposa morreu.

O rude nazareno pegou “Jesus” nos braços. O cheiro do vômito encheu a casa. Ele lavou o vômito do chão, limpou o corpo do embriagado e deu um pedaço de pão a pequena criança. Obviamente aquele não era o “Jesus” que o ateu procurava.

Eles continuaram o caminho até o final do povoado. O segundo “Jesus” morava numa casa bem mais acolhedora. Ele, a esposa e duas crianças comiam uma farta refeição. Ao avistá-los ele gesticulou e bradou:

            - Voltem depois! Agora não! Eu já conheço esse tipo de gente, só querem comer minha comida. Saiam daqui!

Visivelmente embaraçado, o rude nazareno explicou:

            - Perdoe o “Jesus”! Ele teve uma vida muito difícil. Foi abandonado pelos pais e teve que lutar muito para não morrer de fome na infância.

O ateu não sentiu vontade alguma de perdoar o segundo “Jesus”, mas de lhe acertar um cruzado de direita no queixo. Apesar disso ele se consternou com a bondade do rude nazareno. Ele invariavelmente via sempre o lado positivo das pessoas.

Eles decidiram ir à casa do terceiro “Jesus” no dia seguinte. Segundo o rude nazareno, ele era uma pessoa de boa reputação e morava em uma região afastada, duas horas de caminhada.

À noite após a refeição, toda a família se reuniu ao redor do rude nazareno. Ele contou histórias que encantavam crianças e adultos: como Deus criou todas as coisas; como amou sua criação e como ela se afastou dele. Ele contou as histórias de Abraão, Isaque, Jacó, Sansão e tantas outras. Em um  cantinho distante de seu coração, o ateu queria crer naquelas histórias.

No dia seguinte eles caminharam margeando um pequeno córrego, até uma cabana de peles de animais no alto de um monte. Do lado de fora um ancião de cabelos brancos, trajando uma espécie de estola sacerdotal levantou o cajado sinalizando que parassem. Com voz grave ele gritou:

            - Não se aproximem. Primeiro se purifiquem nas águas do riacho, depois conversaremos.

O rude nazareno ensinou ao ateu como se lavar de forma ritualística e em seguida se aproximaram do ancião. Por ser estrangeiro, o ateu não podia entrar na cabana ou comer com o terceiro “Jesus”.

O ancião leu velhos pergaminhos, fez estranhas orações e discursou sobre o messiah que um dia virá devolver a glória ao povo judeu, destruindo todos os todos os inimigos de Israel.

No caminho de volta o ateu tinha duas certezas: que aquele ancião não era o verdadeiro “Jesus” e que certamente ele não existia. O rude nazareno fez mais uma de suas intervenções:

            - Nosso povo é obstinado. Eles se consideram melhor que os outros. Se eles soubessem o grande amor que o Pai tem pelos homens, mesmo com erros e pecados, eles nunca esperariam por destruição, mas por redenção para todos.

O ateu ficou perplexo com essa fala do nazareno. Ele não tinha percebido até então como ele era sábio. O rude nazareno continuou:

            - Você só é ateu porque nunca conheceu o verdadeiro amor do Pai. Os homens Te apresentaram um “Jesus” distante e ébrio que não pode cuidar dos seus próprios filhos. Também te apresentaram um “Jesus” mesquinho que se importa em alimentar apenas os da sua própria mesa, ou ainda um “Jesus” religioso e ritualista que faz distinção entre um povo e outro.

            - Eu sou aquele que estende a mão ao sedento no deserto; sou aquele que sacia a fome e sede do moribundo; sou aquele que lava os vômitos dos derrotados, alimenta o abandonado, perdoa o mesquinho e respeita os fracos na fé. Eu sou aquele que você procurou pelos séculos dos séculos!

No mesmo instante, o ateu acordou apavorado e atordoado. Ele suava frio e a respiração era ofegante. Ele se assentou na cama, olhou ao redor e percebeu que seu quarto estava em ordem. As pernas frouxas se dobraram e observando o clarão da lua sobre a noite tranquila, balbuciou a única palavra que conseguiu:

            - Jesus!!!!!!!

Um comentário:

  1. Muito bom. Com sua permissão a história vai pro meu Blog. Me faz lembrar as aventuras de Jasão no livro Operação Cavalo de Troia. Sendo que esse texto é melhor. Mais ortodoxo...rsrsrs

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