Frases

22 de fev de 2011

Sentimento de abandono divino


É uma história típica do século vinte, e quase chega a ser por demais terrível para se contar: é sobre um garoto de uns doze ou treze anos que, num acesso de loucura e depressão, apanhou uma arma de fogo em algum lugar e disparou em seu pai, que não morreu imediatamente, mas pouco tempo depois. Quando as autoridades interrogaram o menino sobre por que tinha feito aquilo, respondeu que era porque não podia suportar o pai, porque o pai exigia demais dele, porque estava sempre em cima dele, porque odiava o pai. E então, depois que foi internado num recolhimento de menores, um guarda em certa ocasião estava caminhando pelo corredor, tarde da noite, quando ouviu sons vindos da cela do garoto, e parou para ouvir. As palavras que ouviu o garoto pronunciar aos prantos, no escuro, foram: "Quero o meu pai, quero o meu pai."
Frederick Buechner sugere que essa história é "uma espécie de parábola sobre a vida de todos nós." A sociedade moderna é como aquele garoto no recolhimento de menores. Eliminamos nosso Pai. Poucos pensadores ou escritores ou cineastas ou produtores de televisão continuam levando Deus a sério. Ele é um anacronismo, algo que nós superamos. O mundo moderno aceitou o desafio e apostou contra Deus. Há perguntas demais sem resposta. Há decepções demais.*

Assim mesmo, ainda se pode ouvir soluços, abafados gritos de perda, tais como aqueles expressos na literatura e no cinema e quase em toda a arte contemporânea. Difícil coisa é viver sem ter certeza de coisa alguma. A alternativa para a decepção com Deus parece ser a decepção sem Deus. ("O centro de mim", disse Bertrand Russell, "é sempre e eternamente uma dor terrível — uma curiosa dor indômita — uma busca por algo que está além do que o mundo contém.") Mesmo agora vejo essa sensação de perda nos olhos de meu amigo Richard. Ele diz que não acredita em Deus, mas continua trazendo o assunto à tona, protestando em voz alta demais. De onde vem essa dolorida sensação de traição se não há ninguém para perpetrar a traição?

"Você já ouviu acerca do homem que acendeu uma lamparina numa manhã ensolarada e foi para o mercado gritando sem cessar: 'Procuro Deus. Procuro Deus'...?" "Por isso mofavam e riam às altas uns aos outros. O homem pulou para o meio deles e fuzilou-os com o olhar. 'Onde Deus está?' gritou. 'Vou lhes dizer. Nós o matamos, vocês e eu.' Todos somos seus assassinos, mas como é que pudemos fazer isso? Como poderíamos engolir o mar? Quem nos deu a esponja para remover o horizonte? Que faremos quando a terra se livrar do seu sol?'" — Friedrich Nietzsche, The Gay Science ("A Gaia Ciência").

Extraído de Decepcionado com Deus, de Philip Yancey.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...