Frases

14 de fev de 2011

Entre o céu e o inferno

"Deus, porque motivo tenho que passar duas horas do meu domingo na igreja a ouvir as diferentes maneiras de como ir para o inferno?" - Homer Simpson


O personagem Homer do seriado animado Os Simpsons, é famoso pelo seu comportamento cômico e suas frases desconexas, no entanto cheias de idéias que vagueiam no pensamento humano e poucos tem coragem de dizer.

A frase supracitada é algo nos leva a refletir o papel da Igreja como agente “religadora” do homem a Deus. “Religião”, do latim religio, devemos entender seu significado como:  "prestar culto a uma divindade", “ligar novamente", ou simplesmente "religar".

Muitas exposições da Palavra de Deus ministradas nas igrejas cristãs fomentam a indagação do personagem Homer: “creia em Deus ou você vai para o inferno”; “aceite Jesus ou o diabo irá te levar”; “escolha entre viver no céu ou no inferno”.

Os expositores da Palavra que assim manejam as Escrituras estão cometendo um enorme equívoco, criando nos corações de seus ouvintes uma imagem de Deus que é falsa. Nessa perspectiva a luta a qual o homem deve lutar é a fuga do inferno. É a fuga do sofrimento para “os pastos verdejantes, banhados por águas tranqüilas”. É a escolha entre fugir de um lugar ruim e correr um lugar bom. No entanto, não é isso o que Deus planejou para o homem ao enviar Seu Filho Jesus.

Deus ama o mundo (Jo 3:16). E Ele quer ser amado pelo mundo. Nas palavras do romancista russo Fiódor Dostoiévski “O coração do homem tem um vazio do tamanho de Deus”. Meu amigo Wesley de Jesus atualizou a citação dizendo “...e no coração de Deus tem um vazio do tamanho do homem”. Ou seja, Deus quer do homem um relacionamento e não uma coação a ser adorado como faziam os antigos povos para “apaziguar” a ira de seu deus.

Deus não precisa do homem para ser Completo. Ele é auto-realizado em si próprio. A Trindade é a perfeita realização do Pai com o Filho e Seu Espírito (Mt 3:17). Mas Ele escolheu nos amar. Ele escolheu sofrer por nós. Escolher morrer em nosso lugar, para que o sentimento de culpa que o pecado trouxe a nós através do primeiro pecador (Gn 3), eliminasse a distância que havia entre Deus e o homem.

Responder ao chamado de Cristo, escolhendo ao Senhor, não é uma fuga do inferno. É uma fuga da distância de Deus. É uma fuga para os braços do Pai deixando para trás a nós mesmo. O homem deve fugir de si mesmo e não do inferno. Fugir de seus desejos escravizantes, do egoísmo que o priva do altruísmo, do niilismo enfadonho, do antropocentrismo que alimenta o ego do homem, etc.

Alguns teólogos colocam em xeque a existência física do inferno. Eles dizem que “inferno” é o estado absoluto da não presença de Deus, algo sentido por Cristo em seu calvário. Se eles estiverem certos, o inferno é pior do que o dor que o "fogo [que] nunca se apaga" pode causar. O inferno é uma realidade, seja ele físico ou estado experimental e existencial, pois Cristo falou sobre ele. Mas o Evangelho não se trata disso. Jesus não veio para tirar o homem do inferno e sim levá-lo a se encontrar com o Pai que de braços abertos aguarda seu retorno (Lc 15). Não ir para o inferno, é uma conseqüência de estar com Deus e não a sua finalidade. 

As pregações então devem nos chamar a atenção para o amor de Deus e não para a "fuga do inferno". Sou contra qualquer apelo que incite aos não convertidos a “aceitarem para não sofrem”. Isso é demoníaco, é barganha. Qualquer tolo optaria pela via do não sofrimento. Por natureza escolhemos o caminho mais fácil e menos doloroso, por certo escolheríamos o céu, ainda que lá tenha um Deus que não conhecêssemos.

O chamado de Cristo é para voltarmos para o Pai e não para fugirmos da ira vindoura. Os fariseus quando tentaram “fugir”, foram repreendidos por João Batista: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” –  metanoia, “mudem o vosso entendimento”, em outras palavras.

E você? Continua “fugindo da ira vindoura” ou já se encontrou Deus que te ama? "Mudem o vosso entendimento".

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