Frases

29 de jan de 2011

Desabafo de um fundamentalista

por Maurílio Ribeiro da Silva


Como bom evangélico, zeloso da lei, fariseu de fariseus, batista de batistas, me vejo na extrema obrigação de manifestar meu ponto de vista a respeito da matéria “novos evangélicos”.


A matéria da revista “Época”, escrita pelo jornalista Ricardo Alexandre apresentou novas propostas para se vivenciar a fé cristã sem o peso da instituição “Igreja”. Ele entrevistou pessoas como Irani Rosique, Miguel Uchôa, pastor Kivitz e outros. Essas pessoas procuram viver o evangelho de forma simples, leve, comunitária e desinstitucionalizada. Na verdade, eles não estão calculando o prejuízo que podem causar em nossas igrejas. O dano pode ser irreparável.

Imagine só que calamidade seria se todos vivessem o evangelho simples, de comunhão e amor, sem aqueles apelos financeiros e promessas místicas. Imagine só se os nossos escritores não vendessem mais seus livros sobre aves domésticas e aves de rapina. E pior ainda, já pensou se eles forem forçados a escrever sobre teologia de verdade? Quem vai pagar a prestação do Mercedes importado?

Imagine o caos na aviação, o pane nos aeroportos se nossos pastores não puderem viajar mais de jatinho ou helicóptero particular. Quem vai comprar esses milionários transportes, o Bill Gates? Os iluminates? E não é esse o único problema, já pensou que tragédia seria se  eles tivessem que entrar na fila do aeroporto? Fazer check-in? E se alguém na fila perguntasse  algo sobre a Bíblia ou pedisse uma oração ou um conselho? E se o Ozama Bin Laden resolver pegar justamente o mesmo vôo?

Imagine só se nossos cantores/ministros de louvor/adoradores/galãs de auditório não mais vendessem seus caríssimos CD's. Quem vai pagar o condomínio de suas luxuosas coberturas no Belvedere? Quem vai indenizar as fábricas de gelo seco? E as empresas de som?

Tente imaginar o que poderia acontecer com as rádios evangélicas. Eu sinto um arrepio na coluna (cruzes) só de imaginar a possibilidade de não ouvir mais a minha vinheta preferida: Magrins, Magrins, tomei fiquei assim. Já imaginou nunca mais ouvir aquele linda propaganda da ótica com nome de apóstolo? É inadmissível uma rádio evangélica tocar apenas hinos e mensagens evangelísticas.

Como os fabricantes de sal grosso vão viver? Apenas dos churrascos? Como diria o ateu Fernando Henrique Cardoso: - Assim não dá, assim não pode! Pense naqueles pobres agricultores que cultivam arruda. Eles vão chegar em casa de mãos vazias observando os rostos tristes e os olhos molhados de seus filhos esfomeados. Seu coração não dói?

Esses novos evangélicos não pensam nas consequências. Eles não conhecem o Max Weber e é obvio que nunca leram seu livro, A ética protestante e o espírito do capitalismo. Eles sequer sabem que nós somos a mola propulsora da sociedade pós moderna. Ninguém contou para eles que nós vivemos no Brasil da era “pré-sal” (não o sal grosso)? Ninguém contou pra eles que o Brasil vive o capitalismo tardio?

Mas deixa pra lá esse negócio de sociologia, afinal a Igreja não faz parte da sociedade. Ela vive em “outro mundo”, um “mundo espiritual”, bem acima desses reles e mortais gentios. Nossas batalhas se dão no campo acima da estratosfera, no segundo, terceiro ou qualquer céu que venha depois disso. Nossos anjos são Gabriel, Miguel, Rafael, Estefanel, Joaquinhel, Mauriliel, Abravanel (não o Sílvio Santos) e tantos “el” quanto forem precisos. Esse povo tradicional, carnal e racional não sabe o que é “determinar”, “exigir” e  “obrigar” as forças celestes a agirem em nosso favor. Eles nunca tocaram o berrante, digo, o shofar, invocando Deus dos quatro cantos do universo.

Não é possível que a casta sacerdotal evangélica não vá se pronunciar a respeito. Afinal, nós temos até mesmo um patriarca, aquele que é “o” responsável pela vida espiritual de todos os crentes no Brasil. Lembre-se que ele recebeu a unção e o manto de Abraão. Nós temos bispos, apóstolos, pastores, doutores, mestres, diáconos, presbíteros, obreiros, porteiros, zeladores, professores, ministros/adoradores/galãs de auditório, animadores, apresentadores, tele-evangelistas etc. é tanta liderança que quase não sobrou ninguém para ser liderado.

Pode até ser que esses “novos evangélicos” consigam mudar toda a estrutura da vida espiritual evangelical, mas, por favor, não mudem apenas uma coisa. Eu só peço uma coisinha: não acabem com nossos conferencistas/palestrantes/articulistas. Por favor! Não custa nada gente! É tão lindo quando eles abrem o notebook, falam palavras que só eles compreendem, citam autores mumificados na história, usam frases de efeito que dão eco em seus próprios vazios e procuram não ser confundidos com aquela gentinha que se auto intitula “pregadores do evangelho”, aquele povinho pé de chinelo e calcanhar rachado.

Por favor, não acabem com a minha igreja. Manassés um, Manassés dois, Manassés   três..................!

Maurílio Ribeiro Silva é bacharelando em Teologia pela FATEBH - Centro Metodista Izabela Hendrix.

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