Frases

16 de dez de 2016

Condução coercitiva, Silas Malafaia e a IPU

(Imagem: perfil oficial do cantor Leoni)

Em março deste ano, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) publicou um pronunciamento se opondo à "espetacularização" das atividades da Força Tarefa da Lava Jato, criticando a forma "midiática" e "teatral" com a qual seus representantes conduziam as investigações. O pronunciamento recebeu grande apoio de outras instituições e de pessoas que compartilham da mesma percepção. Contudo, houve também certo número de pessoas que criticaram a IPU, acusando-a de estar "a serviço do Partido dos Trabalhadores" e de que suas opiniões não seriam norteadas pela Bíblia (Gospel Prime).

O site "Gospel Prime", ligado ao pastor Silas Malafaia, manifestou sua opinião na época da publicação do pronunciamento da IPU, dizendo que a igreja "como lhe é peculiar, emitiu um parecer onde o princípio norteador não é a Bíblia, mas a ideologia simpática ao socialismo que permeia seus ensinos" (sic). O site ainda afirma outras inverdades como "a Igreja condena os delatores, mas ignora que a maioria dos políticos presos são do PT e de partidos aliados". Basta ler o pronunciamento para ver quão tendenciosa foi a publicação do site "Gospel Prime".

Entretanto, o teor do nono pronunciamento da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil é o de defesa do estado democrático de direito, que busca "garantir o respeito das liberdades civis, ou seja, o respeito pelos direitos humanos e pelas garantias fundamentais, através do estabelecimento de uma proteção jurídica". O Conselho Coordenador da IPU pediu "cautela" para que nenhuma injustiça fosse cometida. Em seu nono parágrafo, afirmou:

"Justiça a qualquer preço é justiçamento e, como tal, não há nenhuma diferença entre levar qualquer investigado preso, mediante condução coercitiva, sem a devida intimação judicial prévia, quanto linchar um pobre jovem negro transgressor e amarrá-lo em um poste, em praça pública, buscando fazer 'justiça com as próprias mãos'."

Na manhã deste 16 de dezembro, o pastor Silas Malafaia foi "alvo de condução coercitiva em caso de corrupção em royalties" (O Globo). Malafaia se defendeu das acusações questionando: "Não poderia ter sido convidado para depor?" (Twitter).

Sim, Malafaia. Acredito que poderiam ter lhe convidado para depor. É exatamente esse o problema que o nono pronunciamento da IPU denunciou. Ontem um ex-presidente, hoje um pastor, amanhã qualquer cidadão poderá ser conduzido coercitivamente sem aviso prévio. É contra um novo "1964" que os presbiterianos unidos do Brasil se pronunciaram. É contra o exercício de um estado de cerceamento judicial, onde os direitos dos cidadãos não são respeitados que se pronunciaram os membros da comunidade que você atacou através de suas mídias virtuais.

"Como lhe é peculiar" inicia uma acusação o "Gospel Prime". Sim, Malafaia. É peculiar à IPU sofrer injustiças. É peculiar à IPU não se calar diante das injustiças sociais para que todos, "sejam cristãos, seguidores de tradições religiosas não cristãs e os sem religião – tenham direito a viver em um país sob o império do estado de Direito, da justiça e da ética, sem distinção de classes, credos, raças ou qualquer outro padrão social convencionado" (§ 1º, Nono Pronunciamento da IPU). Muita coisa é "peculiar à IPU". Porém, jamais foi "peculiar à IPU" manter-se omissa às injustiças que ocorrem ao nosso redor.

Por fim, Malafaia, lutar pela justiça não é "coisa de petista". É coisa de seguidor de Jesus de Nazaré.

13 de dez de 2016

O presépio de Dona Ana


"Há um menino, há um moleque
Morando sempre no meu coração."
Milton Nascimento

Aprendi a gostar de presépios natalinos ainda menino, com Dona Ana, nossa vizinha que trabalhava como zeladora da igreja católica que fica em frente à casa de meus pais.

Nas semanas antecedentes ao Natal, Dona Ana fervia uma mistura de um caldo negro com um pó brilhante e jogava sobre uma lona de tecido grosso. Eu esperava atento para ver como que aquela mistura na tecido formaria um "céu estrelado" para o presépio da igreja. Quando terminava de "fazer o céu", ela amassava o tecido grosso e carregava para dentro da igreja.

Já na igreja, Dona Ana começada a colocar o feno, os animaizinhos, os anjos, os três reis magos e seus presentes, José, Maria e um "cesto Moisés" coberto com palha (só no dia do Natal que o menino Jesus era revelado!). Dona Ana fazia um sistema de iluminação com várias lampadinhas no chão e por sobre o presépio fazendo com que o cenário ficasse todo iluminado e brilhante por causa da mistura fosca e brilhante no tecido grosso, dando a impressão de que sempre era de noitinha na manjedoura do Senhor. Meu coração de menino se enchia ao ver com meus olhos o presépio do Menino Deus. Que maestria, tinha Dona Ana!

Dona Ana, minha mãe me conta, era analfabeta. Pouco sabia das muitas letras teológicas que fundamentam o presépio que ela com as próprias mãos construía. Era muito pobre, eu me lembro. Porém, aprendi mais com Dona Ana sobre a cena do nascimento do nosso Senhor do que com muitos letrados com os quais encontrei na vida.

Enquanto protestante, faço coro ao lamento de Rubem Alves e pranteio a ausência de presépios nas igrejas evangélicas. Que coisa triste é um natal sem um presépio para ensinar às crianças sobre o nascimento de Jesus! "O presépio nos faz querer 'voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de um outro mundo.' (Octávio Paz)" (ALVES, Rubem).

Sou grato a Dona Ana por ter me ensinado sobre o Natal sem ter usado uma única palavra. Oxalá tivéssemos outras "Donas Ana" em nossas igrejas para encher os olhos de nossas crianças com a beleza do nascimento do Salvador!

5 de dez de 2016

O que é necessário para ser um pastor de ovelhas


Um aluno perguntou a Karl Barth que coisa ele diria que é necessário para ser pastor hoje (era 1962). Sua resposta foi deliciosamente sucinta e linda, e parece particularmente relevante hoje:


"- Ah, que pergunta! É a grande pergunta da própria teologia... você está disposto a lidar com a humanidade, tal qual é? A humanidade neste século [XXI] com todas as suas paixões, sofrimentos, erros, etc.? Você gosta dessas pessoas? Não só os bons cristãos, mas gostas de todas as pessoas tal como são? As pessoas com as suas fraquezas? Você gosta? Os ama? Estás disposto a partilhar a mensagem de que Deus não está contra eles, mas para eles? Essa é a única realidade no serviço pastoral, e essa é a pergunta para você..."


(traduzido do post original de Nicolas Panotto)

21 de nov de 2016

Teologia conservadora?


Lamentavelmente, as pessoas associaram a ideia de que o "conservadorismo religioso" significa "manter-se fiel a Deus Pai, Filho e Espírito". Um terrível engano que unicamente conserva o atraso, o preconceito e as injustiças sócio-religiosas.

Quando alguém pressupõe defender uma teologia conservadora "em nome do crescimento numérico", temos que perguntar por quais coisas essa teologia pretende conservar. Seria o rito? Seria a institucionalização da fé? A doutrina? Seriam as leituras descontextualizadas acerca da mulher, do negro ou dos homoafetivos? Ou leituras que afirmam a Terra plana, jovem e literalmente criada em sete dias? Ou talvez, uma leitura que pretende fazer prosélitos pela "cruz ou espada"? Ou ainda, a demonização das outras expressões religiosas? Ou quem sabe, leituras que enxergaram na cor da pele do negro o sinal de Caim?

Isso é totalmente destoante do Cristo que releu as Escrituras jogando luz sobre elas de maneira que mudou a vida daqueles que com ele partilharam o pão na Palestina do século primeiro. "Não se põe vinho novo em odres velhos; ao contrário, estouram os odres", disse Jesus tratando da velha e da nova economia da salvação. Existem percepções de mundo que são totalmente anacrônicas com o mundo atual. E como protestante, faço o constante exercício de SER REFORMANDO, EM CONSTANTE REFORMA.

"O protestantismo liberal clássico surgiu na metade do século XIX, na Alemanha, em meio à crescente percepção de que a fé e a teologia cristãs necessitavam, ambas, ser revistas à luz do conhecimento moderno." (MCGRATH, 2005, p. 138). Talvez não seja o caso das igrejas entrevistas na pesquisa, mas a crítica negativa ao esforço teológico de buscar o conhecimento interdisciplinar é algo danoso a Igreja de Jesus.

Albrecht Benjamin Ritschl, defensor da teologia liberal (século XIX), acreditava que somente após a noção de Reino de Deus ser compreendida pela igreja, uma teologia dialogal poderia ser aceita pelas comunidades de fé cristãs. Isto é, somente uma leitura que apontasse a realidade presente do "reino entre nós" (Lucas 17.21), criaria um ambiente progressista para uma teologia não conservadora, que é, "sui generis", exclusivista e antagônica às Escrituras. Paul Tillich aponta o método da correlação: "Ele entende a função da teologia moderna de estabelecer um diálogo entre a cultura humana e a fé cristã [...] A filosofia, a literatura e as artes dos tempos modernos apontam para questões que interessam aos seres humanos. A teologia, por sua vez, formula respostas para essas questões e, ao fazê-lo, correlaciona o evangelho à cultura moderna. O evangelho deve falar à cultura e isso só é possível se as questões concretas, levantadas por essa cultura, forem ouvidas." (Ibidem, 2005, p. 139).

Em nome do crescimento numérico muitas estratégias já foram adotadas pela igreja ao longo de sua história. Desde Constantino Magno até Macedos, Malafaias e afins. Quanto a nós, resta-nos seguir o conselho de Paulo: "[Conservemos] a fé, a esperança e o amor" (1Co 13.13). O que realmente vale a pena ser conservado.

P.S.¹: Ressalto que a prática, destacada na matéria, de ler a Bíblia é de suma importância também para os progressistas cristãos.
P.S.²: O valor do liberalismo do século XIX, limita-se no seu papel mediador entre fundamentalistas e não cristãos; sua visão extremamente otimista do ser humano é amplamente contestada por Barth e Niebuhr, com os quais concordo em parte. Tillich melhor desenvolve a teologia protestante liberal, a meu ver.

31 de ago de 2016

O que dirão a seu respeito quando tudo isso passar?


Por ser cristão, sempre me perguntei sobre de qual lado eu estaria, se tivesse nascido há dois mil anos na palestina: do lado dos que clamavam "Crucifica-o!" ou se estaria do lado do Cristo, como as mulheres estavam. Por ser brasileiro, sempre me perguntei também de qual lado eu estaria em 1964: do lado dos privilegiados pelo Golpe Civil-militar, ou dos militantes de resistência ao regime de exceção. "De qual lado eu estaria?".

A pergunta que sempre me fiz, não pairou sobre minha cabeça por eu ser uma pessoa que se posiciona tendo em vistas estar do "lado vencedor" ou do "lado mais forte". Nunca fui assim. Sou atleticano, torcedor do Galo das Minas Gerais, e isso por si só deveria ser prova de que eu não escolho um "lado" por este ser o que vai me proporcionar facilidades ou vitórias.

A dúvida sobre o lado o qual eu me posicionaria nas questões supracitadas, ainda estão presentes pelo simples fato de que, sei, as pessoas seguem um caminho a partir de suas identificações pessoais ou informações sobre um determinado caminho. Como me identificar com os que pediam a morte do Messias? Como me identificar com os algozes da nação de 1964? Acredito que essa possível identificação seja possível, uma vez que existe "informação desinformante" no processo de formação do ser humano.

Nossas percepções de "mundo" são embasadas em informações que recebemos sobre o presente e o passado. E, por sua vez, nossas expectativas, caminhos, escolhas e planos são feitos sobre estas percepções. Para que trilhemos um caminho mal, basta que sejamos uma pessoa mal-informada; seja por ausência de informação (ignorância), ou por termos recebido a tal"informação desinformante". Esta última é aquela que existe com intuito de conduzir as pessoas pelo caminho que escolhem para elas. Quase sempre, são informações que colocam grilhões nos mal-informados, submetendo-os à vontade de seus informantes.

Pouco conhecimento sobre o passado e o presente é perigoso. Bem disse George Santayana: "Aqueles que não conhecem o passado, estão condenados a repeti-lo". Já um conhecimento "desinformante", é ainda mais danoso, pois ele serve para conduzir as pessoas sempre em caminhos contrários ao bem comum aos seres humanos. E este conhecimento desinformante é comum à nossa gente. Nossa gente é aquela que desde 1969, dava "boa noite" para o Cid Moreira ao término do "informativo desinformante" Jornal Nacional - jornal este que manipulava as informações à favor do regime de exceção. É também gente que marchou a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", mesmo sendo esta uma caminhada rumo a outro deus e a menos liberdade. É ainda gente que entregava os "irmãos em Cristo" de suas próprias comunidades, por eles serem adeptos do Evangelho Social. Esta nossa gente criou filhos e netos que, por sua vez, outro dia estavam batendo panelas trajando uniforme verde-amarelo bradando "Fora, Dilma!".

E seu eu tivesse nascido há dois mil anos atrás eu estivesse no julgamento do Filho de Deus e me encontrasse na posição de "mal-informado"? E se durante os anos que antecederam e os que prosseguiram o 31 de março de 1964, eu estivesse informado com desinformação? Poxa vida... Que tragédia seria! Diriam que eu compactuei com os assassinos do Deus encarnado; que eu ajudei a impedir o Brasil tivesse avanços significativos na Educação, tendo Darcy Ribeiro e Paulo Freire como suporte do governo de Jango. Diriam isso a meu respeito.

Talvez você seja uma daquelas pessoas que apoiam tudo o que está acontecendo hoje, 31 de agosto, no Congresso brasileiro. E ainda, talvez, você se defenda dizendo para si mesmo "não me importa o que vão pensar de mim". Porém, eu lhe asseguro: irão lhe chamar de golpista; irão dizer que você apoiou um impedimento ilegítimo; irão dizer ainda que você sabia o que estava fazendo ("informação desinformante"); ou no mínimo dirão que você foi um débil ignorante. Sim, meu contemporâneo. Dirão tudo isso de você.

21 de jul de 2016

Motivo pelo qual voto contra a PLS 193/2016


Não existe Escola, Polícia, Igreja, Pessoa, Literatura, Filme, Obra de Arte, Instituição, ONG, etc., "sem partido". Todos nós exalamos o cheiro de nossas escolhas particulares e jamais chegamos até outra pessoa isento de ideias. Afinal de contas, ninguém é uma folha em branco. Até mesmo um simples beijo é partidário. Judas Iscariotes é prova disso. Talvez nem mesmo alguém que esteve em estado de coma e ao acordar amnésico, é uma pessoa "sem partido".

A PLS 193/2016, proposta por um senador da tal "bancada evangélica", nada mais é do que a filha de outro programa já em andamento no Brasil: "Igreja Sem Teologia". E já sabemos a tragédia que isso causou na igreja brasileira.

Esta é uma tentativa desonesta de tornar o professor refém de pais e alunos que possam discordar de seus ideais próprios. Mas o que é o Ensino senão um encontro com saberes ainda não aprendidos? É tarefa das professoras e professores proporcionar o encontro dos alunos com o desconhecido para criar situações de aprendizado.

Por isso e por outros motivos, SOU CONTRA o Projeto de Lei "Escola Sem Partido".


28 de jun de 2016

Karl Barth e a doutrina da predestinação


Uma das características mais interessantes da teologia de Karl Barth é a maneira como ela interage com a teologia do período da ortodoxia reformada. A seriedade com que Barth encarou os escritos desse período foi, em parte, responsável pela criação do termo “neo-ortodoxia”, expressão usada para designar a ampla abordagem de Barth. O tratamento que Barth dispensou à doutrina reformada da predestinação é particularmente interessante, pois demonstra o modo como ele consegue lançar mão de termos tradicionais e atribuir-lhes um novo significado, no contexto de sua própria teologia. A discussão de Barth sobre a predestinação (Church dogmatics [Dogmática da igreja], volume 2, parte 2) fundamenta-se em duas afirmações centrais:
1 - Jesus Cristo é o Deus que elege.
2 - Jesus Cristo é o ser humano eleito.
Essa forte orientação cristológica da predestinação é mantida ao longo de sua análise da doutrina. “Em seu sentido mais simples e abrangente possível, a doutrina da predestinação consiste na afirmação de que a predestinação divina é a eleição de Jesus Cristo. Esse conceito de eleição, porém, faz uma dupla referência - refere-se àquele que elege e também àquele que é eleito”. Portanto, o que exatamente Deus predestinou? A resposta de Barth a essa questão engloba vários elementos, dentre os quais os mais importantes são apresentados a seguir:
1 - “Deus escolheu ser amigo e parceiro da humanidade”. Deus escolheu, por meio de uma decisão livre e soberana, relacionar-se com a humanidade. Barth afirma assim o compromisso de Deus para com a humanidade, apesar do pecado e da corrupção humana.
2 - Deus escolheu demonstrar esse compromisso entregando, pela redenção da humanidade, a Cristo. “De acordo com a Bíblia, foi isso que aconteceu na encarnação do Filho de Deus, em sua paixão e morte e em sua ressurreição dos mortos”. O ato da redenção expressa a atitude de Deus, que elege a si mesmo como redentor da humanidade pecadora.
3 - Deus escolheu suportar toda a dor e todo o preço da redenção. Ele escolheu aceitar a cruz do Gólgota como um trono real. Escolheu também aceitar a porção que pertencia à humanidade caída, especialmente no sofrimento e na morte. Ele escolheu o caminho da auto-humilhação e degradação para redimir a humanidade.
4 - Deus escolheu receber em nosso lugar os aspectos negativos de seu julgamento. Ele rejeita a Cristo, para que nós não sejamos rejeitados. O lado negativo da predestinação que deveria, conforme Barth sugere, ter recaído, por direito, sobre a humanidade pecadora, é, em vez disso, direcionado a Cristo, o Deus que elege e o ser humano eleito.Deus optou por suportar a “rejeição, condenação e morte”, que são as conseqüências inevitáveis do pecado. Assim, “a rejeição não pode vir outra vez a tornar-se a porção ou o destino da humanidade”. Cristo suportou aquilo que a humanidade pecadora deveria ter suportado, para que a humanidade jamais tivesse de suportar isso novamente.
Embora a predestinação contenha um “não”, essa negação não se volta contra a humanidade. Embora a predestinação envolva exclusão e rejeição, não se trata da exclusão e da rejeição da humanidade. Embora ela esteja voltada para a perdição e a morte, não se volta para a perdição e a morte da humanidade.
Assim, Barth elimina qualquer idéia de uma “predestinação para a condenação” em relação à humanidade. O único que é predestinado à condenação é Jesus Cristo que “desde toda a eternidade escolheu sofrer por nós”.

As conseqüências dessa abordagem são claras. Embora todas as aparências indiquem o contrário, a humanidade não pode ser condenada. No final, a graça triunfará, até mesmo sobre a descrença. A doutrina da predestinação de Barth elimina a possibilidade de rejeição da humanidade. Pelo fato de Cristo haver suportado a pena e a dor da rejeição de Deus, isso não mais caberá à humanidade. Aliada a sua ênfase característica sobre o “triunfo da graça”, a doutrina da predestinação de Barth aponta para a restauração e salvação universal da humanidade — uma posição que tem provocado um certo grau de crítica por parte daqueles que, em diferentes condições, seriam favoráveis à perspectiva geral de Barth. Emil Brunner é um exemplo deste tipo de crítica:
O que essa declaração, “que Jesus é a única pessoa realmente rejeitada”, significa para a condição humana? Evidentemente significa isso: Que não há possibilidade de condenação... O julgamento já foi feito em Cristo — e isso serviu para toda a humanidade. O fato de a humanidade ter ou não conhecimento disso, crer ou não nesse fato, não é tão importante. A humanidade é como um grupo de pessoas que parecem estar perecendo em um mar revolto. Contudo, elas, na realidade, não se encontram em um mar onde possam se afogar, mas apenas em águas rasas, nas quais é impossível se afogar. Acontece apenas que elas ignoram esse fato.
Fonte: MCGRATH, Alister E. "Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica."

17 de mai de 2016

Hannah Arednt, Eichmann e o Congresso Nacional brasileiro


Hannah Arendt foi uma importante filosofa alemã, de origem judia, discípula de Martin Heidegger. De suas contribuições para a humanidade destacam-se "As origens do totalitarismo", "A condição humana" e "Eichmann em Jerusalém". Este último livro contém cinco artigos que escreveu para o jornal The New Yorker sobre o julgamento de Adolf Eichmann, político e militar da "Schutzstaffel" (SS) responsável pela logística de extermínio de milhões de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial.

Arendt fez várias observações sobre o processo de julgamento de Eichmann que lhe renderam pesadas críticas na época. Desde a prisão do tenente da SS na Argentina, que para Arendt mais se parecia com um sequestro, para ser julgado em Israel. Para ela o julgamento era apenas de faixada, uma vez que o resultado de todo aquele "circo" já estava pré determinado.

O julgamento de Eichmann tornou-se um espetáculo mundial, sendo televisionado para todo mundo. Para Ardent havia enorme interesse político alemão e israelense naquele julgamento. A Alemanha queria expurgar diante os olhos da humanidade seu crime contra a humanidade; Israel queria mostrar ao mundo que conseguiu ter sua vingança contra o causador do Holocausto.

Arendt percebeu no decorrer do julgamento, focou-se na pessoa de Eichmann toda a culpa pelo genocídio contra os judeus na Alemanha nazifascista. Parecia que ele era o único responsável por todo aquele horror. As estruturas que permitiram o Holocausto não vieram à tona. Eichmann não fora julgado por seus crimes individuais, mas pelo conjunto de crimes cometidos contra os judeus. Por fim, foi enforcado, queimado e suas cinzas lançadas fora do Estado de Israel.

E o que isso tem a ver com o Congresso Nacional?

Em um intervalo de menos de um mês o Congresso Nacional - Câmara e Senado Federal -, nas pessoas de seus deputados e senadores, votaram pela abertura do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff. Tendo a análise de Hannah Arendt acerca do julgamento de Eichmann como pano de fundo, cabe-nos destacar algumas similaridades.

Por razões desprovidas de clareza, o presidente do Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aceitou o processo de impedimento de Dilma. A votação na câmara baixa foi televisionada até mesmo pela maior rede de televisão do país. Tanto a votação dos deputados quanto a dos senadores, semanas mais tarde, foi marcada pela falta de argumentos que legitimassem o impedimento: ficou claro que o que estava acontecendo era uma grande manobra de interesses políticos. A base aliada de Dilma queria chegar ao poder; já a oposição, derrotada nas últimas quatro eleições, queria Dilma fora.

Se no julgamento de Eichmann concentrou-se no alemão toda a culpa pelo Holocausto, nas duas votações do Congresso Nacional concentrou-se em Dilma toda a culpa pelo momento econômico do país e por toda corrupção aqui praticada desde Cabral - questões que não estavam na pauta do processo de impedimento. O verdadeiro motivo pelo qual Dilma foi levada ao processo de impedimento, "violar leis orçamentárias", pouco ou sequer foi mencionado durante as justificativas de voto de cada parlamentar. Alguns disseram que iriam "acompanhar as orientações de seus partidos". Eichmann em seu julgamento insistiu que ele não era culpado pelos crimes cometidos, pois estava apenas cumprindo ordens. Qual a diferença? É a Burocracia do Mal (ARENDT) na política brasileira. 

Por hora, Dilma está sequestrada de seu cargo por até seis meses. "Enforcada", talvez, mas ainda não queimaram seu corpo para depois lançar suas cinzas no esquecimento.

Arendt destacou que Eichmann era um homem comum, um burocrata a seguir com zelo seu dever sem prestar-se à reflexão crítica. Pessoas comuns são passíveis de cometer atrocidades quando aceitam ordens de outros e não colocam-se a pensar e julgar se devem ou não acatar tais ordens. Pessoas como os deputados e senadores, que talvez sejam boas pessoas no dia a dia e, sem pensar nas consequências de seus atos, fizeram o que lhes fora ordenado. "Uma ordem não pode ser maior que a humanidade em si", disse Arendt. De igual modo, os interesses de um determinado partido político, expresso em ordens aos seus afiliados, não pode ser maior que a nação em si.
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