Frases

25 de jan de 2016

O professor moderno e os professores do século I


Eu não sei bem ao certo como acontece nos outros estados, mas aqui, em Minas Gerais, os policias militares não pagam para andar de ônibus, ao contrário dos professores que não gozam deste benefício. Aqui o policial é respeitado, é "quase" idolatrado por sua história de combate ao crime, é bem remunerado (o que faz com que os concursos para trabalhar na área sejam disputadíssimos, ainda que não haja vocação para a profissão), além de contar com apenas uma greve em sua longa existência. 

Já os professores não são tão prestigiados pela sociedade em geral. São vistos como gente que não foi capaz de estudar o suficiente para passar em outro curso qualquer que lhes dessem maior remuneração. São em sua maioria, muito mal remunerados. E quando vão ás ruas pedir melhores condições salariais e de trabalho, a sociedade reclama do trânsito impedido pelos manifestantes, reclama do fato de seus filhos estarem em casa perturbando em vez de estarem na escola (é creche?). Dizem que os professores deveriam ter escolhido uma profissão que desse dinheiro ao invés de ficarem reclamando de seus salários nas ruas a cada ano que passa.

Na verdade, o tal do professor é uma pessoa que se propôs a trabalhar com vários aspectos da vida humana. Vida humana que lhe chega pela pessoa do aluno. O "aluno" não é aquele "sem luz" como alguns dizem, mas "o menino que se faz discípulo", segundo o dicionário Houaiss. E o professor é alguém interessado não apenas em capacitar o aluno para os afazeres técnicos do trabalho, mas também da vida social como um todo. Paulo Freire foi um professor que expressou isto da seguinte maneira: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". A educação transmitida pelo professor não fica, assim, limitada ao mero ensino da aritmética e do bê-á-bá. Ela é também um meio de transformação social.

Esse tal de professor muito se parece com um cara meio maluco e meio santo que apareceu na Galileia no primeiro século. Ele morava sozinho no deserto, comia mel e gafanhotos, vestia-se com peles de camelo e vivia chamando seus contemporâneos à mudança de mentalidade ("metanoia"). Seu nome era João Batista. Ele também não era muito popular entre seus pares sociais. E não é que o mataram? O primo dele, Jesus Cristo de Nazaré, também era um tipo de professor. Ele, Jesus, depois de bater um papo com seu primo professor, João, ficou apaixonado pela docência, largou a carpintaria e saiu país à fora "pregando" e "ensinando".

Jesus afirmava que seu primo havia lhe preparado o caminho para sua missão de vida, assim como fazem os bons professores que despertam em seus alunos o desejo pela docência. Os alunos de Jesus, por sua vez, não arredavam o pé de suas aulas. Teve um deles que disse que não queria ir embora pra casa, porque aquele era um professor que ensinava coisas que tornavam a vida mais bela.

Jesus ensinou tal qual um professor de História, falando do terrível sistema opressor romano que não dignificava o ser humano. Falou também da importância das cotas em seu tempo, uma vez que os pobres deveriam ter preferência e reparo, dada a desigualdade social. Falou ainda do passado, reinterpretando tudo o que se tinha como "História Oficial", deixando os outros professores de seu tempo de cabelo em pé. A paixão de Cristo pelo ensino foi definida por ele mesmo "ágape", isto é, amava com amor de entrega total. Viveu de doações, porque desde aquela época o tal do professor é mal remunerado.

Certa vez numa passeata com seus alunos pela capital do país, ele questionou todo o sistema propondo que se eles derrubassem aquilo que tinham como base do ensino, em três dias o próprio Jesus faria a maior reforma educacional da história da humanidade. Eles não apenas não aceitaram como também na mesma semana deram cabo em sua vida. Quem a sociedade encarregou de matá-lo? Os policiais militares da época, os soldados romanos. Mas não puderam o calar. Seu modo de ensinar foi tão impactante que seus alunos levaram adiante o que dele aprenderam e, assim, viveram e morreram por aquilo. Levaram com tanta paixão que ainda hoje podemos ouvir ecos do que ensinou aquele professor nazareno do século primeiro.

É bem verdade que alguns não vocacionadas ouviram seus ensinamentos e tentaram tirar proveito e lucrar com aquilo. São conhecidos como maus professores. O primeiro deles foi um tal de Judas. Tiveram outros ao longo da história e ainda hoje professores não vocacionados se prestam a ensinar relaxada e descompromissadamente pessoas famintas pelo saber. Infelizmente, isso gera nos alunos desinteresse, aversão, não-transformação e outros sentimentos ruins pelo estudo. Assim, tudo o que os bons professores, como o professor de Nazaré e o professor Paulo Freire fizeram no passado vai aos poucos caindo no esquecimento. Consequentemente, possíveis vocacionados não vão tendo a oportunidade de encontrar com os bons professores que acendem a centelha da paixão pela docência, como fez o primo de Jesus.

Os futuros bons professores, hoje ainda em forma de alunos, precisam se encontrar com bons professores pelo caminho para que suas vidas realmente sofram uma "metanoia". E, desta maneira, sentir seus corações inflamar pela docência, tornando-se bons professores, que vão às ruas reivindicar por melhores condições e que também vão entrar na sala de aula com a mesma paixão que ensinou o professor de Nazaré. Este último abriu mão de certo prestigio social, de seu negocio próprio, que lhe rendia remuneração financeira maior que a vida de professor. Abriu mão de tudo por amor "ágape" àqueles que faziam sua própria vida fazer sentido: seus muitos alunos que ainda hoje são, por ele, inspirados.

14 de jan de 2016

O Coração Pesado e o Coração Leve

(Da direita para a esquerda: o morto, Anúbis e o monstro, Thot e Osíris)

De "coração quebrantado" a "de bom coração": vocês não vão acreditar qual é a origem do uso da palavra "coração" como expressão do interior do ser humano!

Não é surpreendente que o motivo do tornar pesado (ou endurecimento) do coração de Faraó retorne constantemente ao longo da narrativa do Êxodo do Egito. Por exemplo, no capítulo 10 do livro de Êxodo, Deus fala a Moisés "Vai a Faraó, porque tenho tornado pesado o seu coração". Em diferentes lugares da Bíblia, os órgãos internos do Homem, principalmente seus rins e coração, são descritos como órgãos que proveem abrigo às profundezas da alma do ser humano e como os lugares nos quais são maturadas suas decisões mais pessoais e importantes. Daí, não é distante o caminho para a ideia, que é retomada e ensinada na literatura bíblica, que vê no coração o reflexo fiel das características de alguém.

Então, qual é a origem daquele entendimento que dá ao coração a função de refletir o que está na interioridade? É possível que seja o mundo de idéias e religião dos egípcios antigos e o exame da pesagem do coração.

Os antigos egípcios criam no conceito de juízo que acontecia depois da morte. Neste julgamento, era pesado o coração do homem sobre uma balança diante da deusa Ma'at, que incorporava a justiça, a verdade e a ordem correta do mundo. O coração da pessoa que, em vida, agiu conforme a Ma'at, ficaria leve sobre o prato da balança, sendo contado como digno de ganhar a vida eterna no reino do rei do mundo dos mortos, o deus Osíris.

Mas, se o coração fosse pesado de pecados, seria sentenciado aos animais da destruição e perdição. O coração pecador seria comido pelo monstro "engolidor" - uma mistura de crocodilo, leão e hipopótamo -, que permanecia embaixo da balança.

O relevo na foto, exibido no átrio de uma tumba egípcia, tem desenhados nele a pesagem do coração do dono da tumba. O deus que tem a cabeça de chacal, Anúbis, calibra a balança, enquanto Thot, patrono dos escribas, faz o relatório dos resultados do julgamento a Osíris, descrito como o rei das múmias. Conforme é possível ver no relevo, o coração do morto é mais leve do que Ma'at, conseguindo a vida eterna no mundo dos mortos. Descrições do juízo dos mortos foram usados como métodos mágicos, para garantir que o morto sairia inocente do julgamento e, por isso, frequentemente mostram também os resultados que seriam esperados.

"Coração pesado" aparece no Antigo Testamento somente no contexto da narrativa do Êxodo do Egito. Talvez não seja casual que o autor bíblico tenha escolhido utilizar justamente essa expressão, que alude à ideia de maldade no Antigo Egito, conforme é expressada no julgamento dos mortos.

Prestem atenção que, até hoje, nós utilizamos a palavra "coração" para expressar qualidades e estados psíquicos como "coração pleno", "coração de ouro" etc.

Tradução: Erike Couto

17 de dez de 2015

Então é Natal

O inferno dos gordos


Definitivamente Dante Alighieri estava errado quando afirmou que o inferno onde os gordinhos iriam pagar por sua gula era em um dos níveis do seu inferno, com Cérbero (o cão de três cabeças), o lamaçal de sujeira e os gordinhos imersos em seu próprio vômito. É provável que o escritor do século XIII estivesse querendo oferecer algum alívio a um possível amigo com excesso de peso. Percebemos isso quando refletimos sobre o real inferno dos gordos.

Aquele inferninho dos que possuem alta concentração de massa abdominal, proposto por Dante, é um parquinho de diversões quando comparado com o "verdadeiro" inferno vivido pelos gordinhos. Afirmo isso com propriedade, uma vez que vivo uma fase, duradoura por sinal, de "quilos a mais".

O "verdadeiro" inferno vivido pelos gordinhos começa ao abrir o guarda-roupas. As camisas, cuecas, calças, etc., fazem questão de denunciar cada dobra do corpo. "Quando foi que ganhei este peitinho?" Nem me lembro...

Uma vez vestido é a vez do espelho pedir para você dar dois passos para trás para que, assim, você apareça inteiro no espelho. Tudo bem, é só um espelho idiota. Ops, derrubei algo ao dar dois passos para trás.

Estou arrumado. Entro no carro e o volante decidi ir coladinho com a barriga durante todo o percurso. Chego no destino e todos cumprimentam dizendo que estou forte. "Forte? O Stallone é forte! E isso aqui não se parece com o peitoral do Rambo..." Os mais indelicados vão direto ao ponto: "Você engordou, hein!?". O espelho já tinha me avisado, pensei responder, mas sorri o sorriso do lagarto.

É uma festa. Todos estão sendo servidos e observam cada coisa que você come para evitar. "Vai que engorda", devem pensar. Quando há sobremesa, lhe servem a fatia maior. Acho que pensam que cabe mais comida num estômago de gente gorda. Faz sentido.

Ao fim da festa descubro que perdi o botão da calça jeans, que estava estufada. Só espero que o botão não tenha acertado ninguém quando saiu voando por aí. Abraços para lá, despedidas para cá e as esposas marcam de se encontrar mais vezes e fazer algum passeio. Chego em casa e vou dormir. Comi muito. Acho que foi a azeitona. Sempre ela. O sono não vem. Ou vem, mas a barriga está muito cheia para dormir.

Quando consegui dormir, adivinha? Pesadelo. Pesadelo que continuou depois que acordei no dia seguinte ao entrar na Internet e ver que postaram as fotos da festa. Mas que falta de bom senso postar justo aquela foto onde estou sentado e relaxado. E aquela outra onde estou de lado? Tenha dó! Nem mesmo Cérbero consegue infligir tamanha dor numa alma gorda.

Não tem jeito. O inferno dos gordinhos é aqui mesmo. Enquanto houver lasanha, picanha e sorvete, haverá choro e ranger de dentes de nossa parte. E para piorar a Bíblia fala que a porta é estreita. Até aí os gordinhos se deram mal, em caso da leitura literal for a mais acertada. O jeito é fechar a boca.

15 de dez de 2015

Onde estava Deus?

(Ilustração do blog "Um Sábado Qualquer", adaptado)


Deus, onde estás?
Palavrantiga

É comum nos perguntarmos por anda Deus em tempos de crise. O salmista bradou no momento de angústia "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que estás afastado de me auxiliar e das palavras do meu bramido? Deus meu, a ti clamo de dia, porém não me respondes; Também de noite, porém não acho descanso." (Sl 22). Sempre que ocorre uma tragédia em nossas vidas ou mesmo ao nosso redor, queremos uma explicação do Senhor sobre a razão dEle, sendo todo-poderoso, parecer-nos que estava inerte ao acontecido. Somos assim pela razão a qual Deus nos é apresentado nos dois Testamentos como um ser onipresente, onisciente e onipotente.

O filósofo Epicuro, em seu famoso paradoxo, disse: "Se Deus pode acabar com o mal mas não quer, é monstruoso; se quer, mas não pode, é incapaz; se não pode nem quer, é impotente e cruel; se pode e quer, por que não o faz?". A afirmação de Epicuro é baseada na ideia de que Deus e o mal não podem coexistir se essa divindade for considerada onisciente, onipotente e benevolente. Então, como poderia Deus possuir os três atributos, onipresença, onisciência e onipotência, e, mesmo assim, não intervir na história? Para tentar responder a esta pergunta precisamos refletir sobre a pessoa de Deus em sua manifestação máxima: Jesus Cristo de Nazaré.

Jesus apresentou-se como a revelação do Pai (Jo 14:9) e como o cumprimento de tudo o que fora antes prometido (Lc 4:21). Segundo o Evangelho de João, Jesus deparou-se com uma situação de pesarosa perda, quando seu amigo Lázaro falecera. Após alguns dias ele foi até seu amigo, já morto, e ao dialogar com Maria irmã de Lázaro, vendo-a sofrer e chorar, Jesus entristeceu-se profundamente e também chorou. O compadecimento de Jesus demonstra que Deus se compadece com a dor humana. Lázaro morrera dentro do chronos, mas Jesus teria acesso ao seu espírito através do Pai (Ec 12.7). Sua presença ainda era acessível a Deus. Contudo, o sofrer do Cristo foi um sofrimento pela dor de Maria e não pelo amigo que havia morrido. Ou seja, Jesus sofreu o sofrimento de Maria irmã de Lázaro. Ele compadeceu-se com a dor do outro. O próprio Salmo 22 diz que Deus não esconde sua face do sofrimento do aflito. Logo, Deus não é apático ao sofrimento humano, antes sofre com cada um e cada uma que sofre.

"Se Deus sofre a dor humana e Ele é onipotente, por que não age para que a dor cesse?" A Bíblia não diz o porquê de Deus "parecer" não agir diretamente evitando um tsunami, um terremoto, a queda de um avião, um acidente de carro, o afogamento de bebês, guerras, doenças, etc. Contudo, as Escrituras apontam para algumas possibilidades de compreensão: (1) Deus sofre com a humanidade as suas dores, mas só intervém no chronos de acordo com Seu plano macro; (2) Deus sofre com a humanidade as suas dores, intervém na história em alguns momentos de maneira especial (ex.: a encarnação de Cristo) e confia à Igreja para agir no mundo como agente de cura e transformação (Lc 22.29).

As duas possibilidades de explicação estão interligadas, sendo a segunda a mais completa. O Deus que sofre as dores da humanidade, escolheu agir no mundo através de sua Igreja. Sim, a Igreja é o corpo de Cristo (Cl 1.18) que promove as ações salvíficas de Deus na história, pelo Cristo e através do Espírito. Por que? Porque Ele escolheu que assim fosse. Porque Ele escolheu ser parceiro do Homem na história de sua redenção e regeneração. Deus quer que humanidade caminhe com Ele neste processo de cuidado da criação. Deus quer que o ser humano se importe, como Ele se importa, com a dor de nosso semelhante. O Deus que sofre, ás vezes sofre duplamente: sofre as dores dos que sofrem e novamente quando Sua Igreja negligencia o convite do Cristo para servir ao próximo, como o Cristo serviu - "o Maior que serve o menor" (Mt 20:25-28).

Este é o legado da Igreja: sofrer as dores do próximo e ser agente de cura e de transformação. É dever da Igreja se importar, permitir-se angustiar com os problemas dos outros e, quando for o caso, chorar as lágrimas dos seus semelhantes. Sejam eles de suas igrejas ou não; sejam eles cristãos ou não. Através de Sua Igreja, Deus responde ao mundo que se importa com a humanidade e age em prol dela. Mas para isso, a comunidade cristã precisa se posicionar como serva do mundo e não dela mesma; posicionar-se como corpo de Cristo que toca e abraça o mundo em suas aflições, não escondendo sua face ao que clama. 

A pergunta "Deus, onde estás?", deve ser respondida com outra pergunta: "Igreja, onde estás?". Deus está onde Sua Igreja está. Se uma determinada igreja isola-se dentro de suas quatro paredes e, por conseguinte, não se importa com a vida da comunidade que a cerca, ela é promotora da ausência de Deus ao seu redor. Não há lugar no universo em que Ele não esteja presente, mas há lugares onde Sua ação é limitada pelo interesse de Seus seguidores. Seu Espírito vivendo em cada cristão visita os que sofrem. Essa é a missão da Igreja: visitar os aflitos em suas aflições anunciando as Boas Novas, o reino de Deus e promovendo a paz. Se conseguirmos fazer isso, seremos então a Igreja que o Senhor deseja.

7 de dez de 2015

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Por Jorge H. Barro

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Paulo disse: "Examinai tudo. Retende o que é bom." (1 Ts 5:21)

O que você pensa de mim é um problema teu. O que eu penso de você é um problema meu.

Se você curte fazer isso, na boa, compre uma ETIQUETADORA e vá trabalhar no supermercado, magazines, lojas de roupas. Nada de errado com esses estabelecimentos, mas tudo certo para você.

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