Frases

21 de jul de 2016

Motivo pelo qual voto contra a PLS 193/2016


Não existe Escola, Polícia, Igreja, Pessoa, Literatura, Filme, Obra de Arte, Instituição, ONG, etc., "sem partido". Todos nós exalamos o cheiro de nossas escolhas particulares e jamais chegamos até outra pessoa isento de ideias. Afinal de contas, ninguém é uma folha em branco. Até mesmo um simples beijo é partidário. Judas Iscariotes é prova disso. Talvez nem mesmo alguém que esteve em estado de coma e ao acordar amnésico, é uma pessoa "sem partido".

A PLS 193/2016, proposta por um senador da tal "bancada evangélica", nada mais é do que a filha de outro programa já em andamento no Brasil: "Igreja Sem Teologia". E já sabemos a tragédia que isso causou na igreja brasileira.

Esta é uma tentativa desonesta de tornar o professor refém de pais e alunos que possam discordar de seus ideais próprios. Mas o que é o Ensino senão um encontro com saberes ainda não aprendidos? É tarefa das professoras e professores proporcionar o encontro dos alunos com o desconhecido para criar situações de aprendizado.

Por isso e por outros motivos, SOU CONTRA o Projeto de Lei "Escola Sem Partido".


28 de jun de 2016

Karl Barth e a doutrina da predestinação


Uma das características mais interessantes da teologia de Karl Barth é a maneira como ela interage com a teologia do período da ortodoxia reformada. A seriedade com que Barth encarou os escritos desse período foi, em parte, responsável pela criação do termo “neo-ortodoxia”, expressão usada para designar a ampla abordagem de Barth. O tratamento que Barth dispensou à doutrina reformada da predestinação é particularmente interessante, pois demonstra o modo como ele consegue lançar mão de termos tradicionais e atribuir-lhes um novo significado, no contexto de sua própria teologia. A discussão de Barth sobre a predestinação (Church dogmatics [Dogmática da igreja], volume 2, parte 2) fundamenta-se em duas afirmações centrais:
1 - Jesus Cristo é o Deus que elege.
2 - Jesus Cristo é o ser humano eleito.
Essa forte orientação cristológica da predestinação é mantida ao longo de sua análise da doutrina. “Em seu sentido mais simples e abrangente possível, a doutrina da predestinação consiste na afirmação de que a predestinação divina é a eleição de Jesus Cristo. Esse conceito de eleição, porém, faz uma dupla referência - refere-se àquele que elege e também àquele que é eleito”. Portanto, o que exatamente Deus predestinou? A resposta de Barth a essa questão engloba vários elementos, dentre os quais os mais importantes são apresentados a seguir:
1 - “Deus escolheu ser amigo e parceiro da humanidade”. Deus escolheu, por meio de uma decisão livre e soberana, relacionar-se com a humanidade. Barth afirma assim o compromisso de Deus para com a humanidade, apesar do pecado e da corrupção humana.
2 - Deus escolheu demonstrar esse compromisso entregando, pela redenção da humanidade, a Cristo. “De acordo com a Bíblia, foi isso que aconteceu na encarnação do Filho de Deus, em sua paixão e morte e em sua ressurreição dos mortos”. O ato da redenção expressa a atitude de Deus, que elege a si mesmo como redentor da humanidade pecadora.
3 - Deus escolheu suportar toda a dor e todo o preço da redenção. Ele escolheu aceitar a cruz do Gólgota como um trono real. Escolheu também aceitar a porção que pertencia à humanidade caída, especialmente no sofrimento e na morte. Ele escolheu o caminho da auto-humilhação e degradação para redimir a humanidade.
4 - Deus escolheu receber em nosso lugar os aspectos negativos de seu julgamento. Ele rejeita a Cristo, para que nós não sejamos rejeitados. O lado negativo da predestinação que deveria, conforme Barth sugere, ter recaído, por direito, sobre a humanidade pecadora, é, em vez disso, direcionado a Cristo, o Deus que elege e o ser humano eleito.Deus optou por suportar a “rejeição, condenação e morte”, que são as conseqüências inevitáveis do pecado. Assim, “a rejeição não pode vir outra vez a tornar-se a porção ou o destino da humanidade”. Cristo suportou aquilo que a humanidade pecadora deveria ter suportado, para que a humanidade jamais tivesse de suportar isso novamente.
Embora a predestinação contenha um “não”, essa negação não se volta contra a humanidade. Embora a predestinação envolva exclusão e rejeição, não se trata da exclusão e da rejeição da humanidade. Embora ela esteja voltada para a perdição e a morte, não se volta para a perdição e a morte da humanidade.
Assim, Barth elimina qualquer idéia de uma “predestinação para a condenação” em relação à humanidade. O único que é predestinado à condenação é Jesus Cristo que “desde toda a eternidade escolheu sofrer por nós”.

As conseqüências dessa abordagem são claras. Embora todas as aparências indiquem o contrário, a humanidade não pode ser condenada. No final, a graça triunfará, até mesmo sobre a descrença. A doutrina da predestinação de Barth elimina a possibilidade de rejeição da humanidade. Pelo fato de Cristo haver suportado a pena e a dor da rejeição de Deus, isso não mais caberá à humanidade. Aliada a sua ênfase característica sobre o “triunfo da graça”, a doutrina da predestinação de Barth aponta para a restauração e salvação universal da humanidade — uma posição que tem provocado um certo grau de crítica por parte daqueles que, em diferentes condições, seriam favoráveis à perspectiva geral de Barth. Emil Brunner é um exemplo deste tipo de crítica:
O que essa declaração, “que Jesus é a única pessoa realmente rejeitada”, significa para a condição humana? Evidentemente significa isso: Que não há possibilidade de condenação... O julgamento já foi feito em Cristo — e isso serviu para toda a humanidade. O fato de a humanidade ter ou não conhecimento disso, crer ou não nesse fato, não é tão importante. A humanidade é como um grupo de pessoas que parecem estar perecendo em um mar revolto. Contudo, elas, na realidade, não se encontram em um mar onde possam se afogar, mas apenas em águas rasas, nas quais é impossível se afogar. Acontece apenas que elas ignoram esse fato.
Fonte: MCGRATH, Alister E. "Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica."

17 de mai de 2016

Hannah Arednt, Eichmann e o Congresso Nacional brasileiro


Hannah Arendt foi uma importante filosofa alemã, de origem judia, discípula de Martin Heidegger. De suas contribuições para a humanidade destacam-se "As origens do totalitarismo", "A condição humana" e "Eichmann em Jerusalém". Este último livro contém cinco artigos que escreveu para o jornal The New Yorker sobre o julgamento de Adolf Eichmann, político e militar da "Schutzstaffel" (SS) responsável pela logística de extermínio de milhões de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial.

Arendt fez várias observações sobre o processo de julgamento de Eichmann que lhe renderam pesadas críticas na época. Desde a prisão do tenente da SS na Argentina, que para Arendt mais se parecia com um sequestro, para ser julgado em Israel. Para ela o julgamento era apenas de faixada, uma vez que o resultado de todo aquele "circo" já estava pré determinado.

O julgamento de Eichmann tornou-se um espetáculo mundial, sendo televisionado para todo mundo. Para Ardent havia enorme interesse político alemão e israelense naquele julgamento. A Alemanha queria expurgar diante os olhos da humanidade seu crime contra a humanidade; Israel queria mostrar ao mundo que conseguiu ter sua vingança contra o causador do Holocausto.

Arendt percebeu no decorrer do julgamento, focou-se na pessoa de Eichmann toda a culpa pelo genocídio contra os judeus na Alemanha nazifascista. Parecia que ele era o único responsável por todo aquele horror. As estruturas que permitiram o Holocausto não vieram à tona. Eichmann não fora julgado por seus crimes individuais, mas pelo conjunto de crimes cometidos contra os judeus. Por fim, foi enforcado, queimado e suas cinzas lançadas fora do Estado de Israel.

E o que isso tem a ver com o Congresso Nacional?

Em um intervalo de menos de um mês o Congresso Nacional - Câmara e Senado Federal -, nas pessoas de seus deputados e senadores, votaram pela abertura do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff. Tendo a análise de Hannah Arendt acerca do julgamento de Eichmann como pano de fundo, cabe-nos destacar algumas similaridades.

Por razões desprovidas de clareza, o presidente do Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aceitou o processo de impedimento de Dilma. A votação na câmara baixa foi televisionada até mesmo pela maior rede de televisão do país. Tanto a votação dos deputados quanto a dos senadores, semanas mais tarde, foi marcada pela falta de argumentos que legitimassem o impedimento: ficou claro que o que estava acontecendo era uma grande manobra de interesses políticos. A base aliada de Dilma queria chegar ao poder; já a oposição, derrotada nas últimas quatro eleições, queria Dilma fora.

Se no julgamento de Eichmann concentrou-se no alemão toda a culpa pelo Holocausto, nas duas votações do Congresso Nacional concentrou-se em Dilma toda a culpa pelo momento econômico do país e por toda corrupção aqui praticada desde Cabral - questões que não estavam na pauta do processo de impedimento. O verdadeiro motivo pelo qual Dilma foi levada ao processo de impedimento, "violar leis orçamentárias", pouco ou sequer foi mencionado durante as justificativas de voto de cada parlamentar. Alguns disseram que iriam "acompanhar as orientações de seus partidos". Eichmann em seu julgamento insistiu que ele não era culpado pelos crimes cometidos, pois estava apenas cumprindo ordens. Qual a diferença? É a Burocracia do Mal (ARENDT) na política brasileira. 

Por hora, Dilma está sequestrada de seu cargo por até seis meses. "Enforcada", talvez, mas ainda não queimaram seu corpo para depois lançar suas cinzas no esquecimento.

Arendt destacou que Eichmann era um homem comum, um burocrata a seguir com zelo seu dever sem prestar-se à reflexão crítica. Pessoas comuns são passíveis de cometer atrocidades quando aceitam ordens de outros e não colocam-se a pensar e julgar se devem ou não acatar tais ordens. Pessoas como os deputados e senadores, que talvez sejam boas pessoas no dia a dia e, sem pensar nas consequências de seus atos, fizeram o que lhes fora ordenado. "Uma ordem não pode ser maior que a humanidade em si", disse Arendt. De igual modo, os interesses de um determinado partido político, expresso em ordens aos seus afiliados, não pode ser maior que a nação em si.

12 de mai de 2016

TCHAU, MINHA QUERIDA!


Despeço-me de você com muito pesar, minha querida. Não, eu não faço coro aos paneleiros que, não conseguindo cantar e dançar a música proposta há quatorze anos atrás, decidiram abruptamente trocar o disco neste momento.

Sei que você não tem culpa dos crimes que sequer foi acusada neste processo de impedimento. Na aparência lutaram contra a corrupção; mas foi contra a corrupção dos outros e não a deles mesmos. Sei também que você não é culpada por ter feito as tais alianças de governabilidade, que há muito viraram as costas para você. Disseram que você tem pouca articulação com essa gente. Concordo com você; com alguns "tipos" não se pode dialogar, pois eles só pensam neles mesmos e não no povo que te elegeu, minha querida.

Você foi valente. Resistiu a tudo e a todos até agora e, sei, continuará lutando nos próximos seis meses pela justiça e pela democracia. Você lutará por nós, os 54 milhões de brasileiros que não querem mais o projeto deles. Lutará pelo Brasil que poucas vezes lhe deu o devido respeito. Como pode você, minha querida, amar tanto este país que lhe deu ratos, açoites, Ustras, Bolsonaros e tantos xingamentos impublicáveis? Você tem minha eterna admiração, querida.

A minha despedida, por mais triste que seja, ela é despedida com sabor de esperança de que em breve nos reencontraremos e tomaremos um bom café com pão de queijo, na companhia da justiça e da democracia no Palácio do Planalto ao som daquele bom disco que estava tocando até ontem. Então, "Até logo, minha querida Dilma Rousseff".

Felipe.

18 de abr de 2016

Direita Livre


Na saída do bairro Buritis, em Belo Horizonte, onde trabalho há quase uma década, esta placa de sinalização de trânsito sempre me chamou a atenção. Por mais que a intenção da BHTrans seja apenas orientar o trânsito da cidade, a placa sempre me remeteu ao discurso político e filosófico por detrás da simples placa.

A Direita política brasileira não esteve apenas sempre livre; ela influenciou diretamente na perseguição, abafamento, prisão e assassinato da Esquerda política. Ela sempre promoveu uma queda de braço público, utilizado meios sórdidos, para convencer ao grande público que seu projeto de governo seria melhor. Ela sempre este de mãos dadas com os mais ricos, aos beijos com a grande mídia e na cama dos grandes empresário fumando um cigarro pós-coito. Nem mesmo quando o Brasil começou a caminhar à Esquerda, no pós-Golpe, ela recebeu o devido julgamento - os arquivos deste período foram ocultados da população com, pasmem, o apoio da própria Esquerda.

Neste momento, a livre Direita aprova na câmara um processo de impedimento contra uma representante que mais se aproximou de um governo de Esquerda. Não é um governo sonhado pela Esquerda, mas foi o que mais se aproximou, no período pós-redemocratização do país. O "déjà vu" atinge a alma da Esquerda.

A Esquerda precisa refletir e muito sobre quais caminhos irá tomar de agora em diante. Os conchavos políticos "em nome da governabilidade" com a Direita, precisam ser abandonados. O apadrinhamento eleitoral precisa ser cessado. Minha mãe sempre me disse que com fogo não se brinca; aos meus filhos eu ensinarei que com a Direita também não se brinca e nem faz base política. O caminho à Esquerda precisa ser trilhado, ainda que com dificuldade, em nome do Estado de Bem-Estar Social e da igualdade social entre os povos. Ainda que demore, nós vamos chegar lá.

Quanto a mim, sempre que passar pela placa "Direita livre", vou me lembrar, como um espinho na carne, que enquanto a Direita estiver livre para assaltar a democracia nacional, a Esquerda será apenas uma utopia daqueles que buscam igualdade e justiça social.

24 de mar de 2016

Um chamado à justiça e ao direito


"Que o direito corra como a água
e a justiça como um rio caudaloso!"
Amós 5:24

Os profetas judaicos fizeram severas denúncias contra os governos políticos dos reis de Israel e Judá. Na passagem supracitada, Amós, "criador de gado e cultivador de sicômoros", vendo os problemas nacionais nos dias de Ozias (Judá) e Jeroboão (Israel), ergueu sua voz contra os poderosos de seu tempo que vendiam "o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos". As esposas dos líderes políticos nacionais foram chamadas de "vacas de basã", devido aos seus excessivos adornos e deboche aos pobres. Estas pessoas encontravam-se "no monte de Samaria", local sagrado, ou seja, eram pessoas que se entendiam e queriam ser vistas como gente piedosa, religiosa, santa, etc.

Amós, homem comum, que não vinha de uma linhagem de profetas e também não se entendia como um profeta (nabi). Amós ainda não pertencia a classe política de sua época, pois não era membro de nenhuma das duas cortes. Mesmo assim, Amós viu-se como alguém designado por Javé para falar ao povo em seus dias: "O Senhor Deus falou, quem não profetizará?" Em outras palavras, Amós era apenas mais uma pessoa que viu que sua nação tornara-se um lugar de injustiças e, chamado por Deus, profetizou.

Em nossos dias as palavras "direito" e "justiça" vem sendo empregadas em várias esferas da sociedade, em especial nas manifestações populares das ruas. O clamor que nasce nos noticiários e rompe-se pelas ruas, é clamor para que justiça seja feita. Com um momento político ruim, recheado de falas apaixonadas e algumas vezes sem conhecimento do problema, desde as eleições 2013, as pessoas, que são vítimas de corrupções governamentais e de seus pares sociais desde que o primeiro europeu pisou em nossa terra, se politizaram da noite para o dia. Pessoas comuns como Amós, que viram as coisas ruins que sucedem em todo nosso país e foram para as ruas se manifestar por um país melhor.

Contudo, há uma importante diferença do movimento das ruas em nossos dias, do movimento profético de Amós no século VII a.C.: a justiça pela qual Deus tirou Amós de sua vida comum para o engajamento religioso-político clamava por uma justiça imparcial. Amós proferiu denúncia contra os povos vizinhos e contra seu próprio povo. Damasco, Gaza, Filistéia, Tiro, Fenícia, Edom, Amon, Moab, Judá e Israel: todos foram acusados de seus erros por Amós, ninguém foi poupado.

Infelizmente há nos noticiários e no clamor popular, nítida seletividade. Podemos perceber que a há uma erronia concentração de todos os problemas do país, que viveu anos de má gestão e corrupção, em cima de um partido ou um político A ou B. Os noticiários, muitas vezes parciais, são a principal causa de tal desinformação e inflamação popular contra A e B. Assim, os gritos por justiça vão demonstrando o tipo de "justiça" que as pessoas, mesmo sem saber, estão pedindo.

Quando a "justiça" é parcial, ela torna-se irremediavelmente injustiça. Quando a Justiça não julga com base no direito de cada cidadão, colhe-se maldade (Pv 22.8). Pois a injustiça feita com outro semelhante, que pensa e age diferente de mim, é injustiça feita contra a mim mesmo. Moisés fazendo a releitura ao povo hebreu dos mandamentos de Deus (Deuteronômio) disse: "Não pervertam a justiça nem mostrem parcialidade". Todo aquele que se identifica com o deus judaico-cristão deveria atentar-se para este mandamento. 

Deus espera que nossa justiça seja como um rio caudaloso que pode saciar a sede de justiça de toda a humanidade e não apenas de uma parcela dela, como fazem os pequeninos riachos que, demasiadamente regionais, molham apenas uma fração de terra. Que o direito seja fluido em seu curso, não sendo retido a uns e utilizado à favor de outros. Que neste momento tão delicado de nossa história nacional, possamos aprender com Amós, que continua tão atual quanto a sede por uma justiça justa para todas(os).

Sobre o posicionamento do CC-IPU em relação aos últimos acontecimentos políticos no país


A Igreja Presbiteriana Unida do Brasil possui em sua gene, a característica profética/revolucionária de denunciar e agir em prol da construção de um mundo mais justo e igualitário, conforme o projeto de Deus para Sua criação. Seus membros fundadores foram perseguidos durante a Ditadura Civil-Militar, por causa de suas preocupação em socorrer os oprimidos e carentes, pobres e viúvas, tal qual o movimento profético judaico do século VII a. C.

Sendo assim, não se poderia esperar outro posicionamento em relação ao atual momento, onde muitas(os) se posicionam sem ter visão crítica em relação às muitas notícias que circulam nas diversas mídias. Como no futebol, muitas(os) escolheram a cor de suas camisas e não estão buscando solução para o país, antes estão promovendo uma disputa acalorada pelo "lado melhor". Isso, sem perceber que, desse modo, somos todas(os) perdedores.

Ao posicionar-se contra o espetáculo midiático, contra o vazamento e a indignação seletiva, o Conselho Coordenador da IPU demonstra para todas(os) e principalmente para seus membros recentes, como é o meu caso, que a IPU não perdeu sua veia profética, que denuncia e atua em todas as frentes. Demostra ainda que não é uma instituição voltada para si, fechada em seus próprios problemas e indiferente ao mundo que é objeto do amor de Deus.

Em seu pronunciamento o CC-IPU destaca ainda que a IPU não é partidária, pois pede que tudo seja legalmente apurado e os culpados devidamente punidos. Que Deus dê discernimento a todas(os), em especial aos membros desta instituição, para que não sejamos enganados por nossas paixões políticas e, por conseguinte, negar a justiça a quem se deve. Que o Senhor seja luz para o caminho da IPU e de todas(os) as cidadãs(ãos) brasileiras(os).

25 de jan de 2016

O professor moderno e os professores do século I


Eu não sei bem ao certo como acontece nos outros estados, mas aqui, em Minas Gerais, os policias militares não pagam para andar de ônibus, ao contrário dos professores que não gozam deste benefício. Aqui o policial é respeitado, é "quase" idolatrado por sua história de combate ao crime, é bem remunerado (o que faz com que os concursos para trabalhar na área sejam disputadíssimos, ainda que não haja vocação para a profissão), além de contar com apenas uma greve em sua longa existência. 

Já os professores não são tão prestigiados pela sociedade em geral. São vistos como gente que não foi capaz de estudar o suficiente para passar em outro curso qualquer que lhes dessem maior remuneração. São em sua maioria, muito mal remunerados. E quando vão ás ruas pedir melhores condições salariais e de trabalho, a sociedade reclama do trânsito impedido pelos manifestantes, reclama do fato de seus filhos estarem em casa perturbando em vez de estarem na escola (é creche?). Dizem que os professores deveriam ter escolhido uma profissão que desse dinheiro ao invés de ficarem reclamando de seus salários nas ruas a cada ano que passa.

Na verdade, o tal do professor é uma pessoa que se propôs a trabalhar com vários aspectos da vida humana. Vida humana que lhe chega pela pessoa do aluno. O "aluno" não é aquele "sem luz" como alguns dizem, mas "o menino que se faz discípulo", segundo o dicionário Houaiss. E o professor é alguém interessado não apenas em capacitar o aluno para os afazeres técnicos do trabalho, mas também da vida social como um todo. Paulo Freire foi um professor que expressou isto da seguinte maneira: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". A educação transmitida pelo professor não fica, assim, limitada ao mero ensino da aritmética e do bê-á-bá. Ela é também um meio de transformação social.

Esse tal de professor muito se parece com um cara meio maluco e meio santo que apareceu na Galileia no primeiro século. Ele morava sozinho no deserto, comia mel e gafanhotos, vestia-se com peles de camelo e vivia chamando seus contemporâneos à mudança de mentalidade ("metanoia"). Seu nome era João Batista. Ele também não era muito popular entre seus pares sociais. E não é que o mataram? O primo dele, Jesus Cristo de Nazaré, também era um tipo de professor. Ele, Jesus, depois de bater um papo com seu primo professor, João, ficou apaixonado pela docência, largou a carpintaria e saiu país à fora "pregando" e "ensinando".

Jesus afirmava que seu primo havia lhe preparado o caminho para sua missão de vida, assim como fazem os bons professores que despertam em seus alunos o desejo pela docência. Os alunos de Jesus, por sua vez, não arredavam o pé de suas aulas. Teve um deles que disse que não queria ir embora pra casa, porque aquele era um professor que ensinava coisas que tornavam a vida mais bela.

Jesus ensinou tal qual um professor de História, falando do terrível sistema opressor romano que não dignificava o ser humano. Falou também da importância das cotas em seu tempo, uma vez que os pobres deveriam ter preferência e reparo, dada a desigualdade social. Falou ainda do passado, reinterpretando tudo o que se tinha como "História Oficial", deixando os outros professores de seu tempo de cabelo em pé. A paixão de Cristo pelo ensino foi definida por ele mesmo "ágape", isto é, amava com amor de entrega total. Viveu de doações, porque desde aquela época o tal do professor é mal remunerado.

Certa vez numa passeata com seus alunos pela capital do país, ele questionou todo o sistema propondo que se eles derrubassem aquilo que tinham como base do ensino, em três dias o próprio Jesus faria a maior reforma educacional da história da humanidade. Eles não apenas não aceitaram como também na mesma semana deram cabo em sua vida. Quem a sociedade encarregou de matá-lo? Os policiais militares da época, os soldados romanos. Mas não puderam o calar. Seu modo de ensinar foi tão impactante que seus alunos levaram adiante o que dele aprenderam e, assim, viveram e morreram por aquilo. Levaram com tanta paixão que ainda hoje podemos ouvir ecos do que ensinou aquele professor nazareno do século primeiro.

É bem verdade que alguns não vocacionadas ouviram seus ensinamentos e tentaram tirar proveito e lucrar com aquilo. São conhecidos como maus professores. O primeiro deles foi um tal de Judas. Tiveram outros ao longo da história e ainda hoje professores não vocacionados se prestam a ensinar relaxada e descompromissadamente pessoas famintas pelo saber. Infelizmente, isso gera nos alunos desinteresse, aversão, não-transformação e outros sentimentos ruins pelo estudo. Assim, tudo o que os bons professores, como o professor de Nazaré e o professor Paulo Freire fizeram no passado vai aos poucos caindo no esquecimento. Consequentemente, possíveis vocacionados não vão tendo a oportunidade de encontrar com os bons professores que acendem a centelha da paixão pela docência, como fez o primo de Jesus.

Os futuros bons professores, hoje ainda em forma de alunos, precisam se encontrar com bons professores pelo caminho para que suas vidas realmente sofram uma "metanoia". E, desta maneira, sentir seus corações inflamar pela docência, tornando-se bons professores, que vão às ruas reivindicar por melhores condições e que também vão entrar na sala de aula com a mesma paixão que ensinou o professor de Nazaré. Este último abriu mão de certo prestigio social, de seu negocio próprio, que lhe rendia remuneração financeira maior que a vida de professor. Abriu mão de tudo por amor "ágape" àqueles que faziam sua própria vida fazer sentido: seus muitos alunos que ainda hoje são, por ele, inspirados.
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